Publicado por: Wally | Quarta-feira, Maio 7, 2008

Paranoid Park


Medos privados em lugares sombrios

 

 

Um adolescente estudante e skatista começa a enfrentar problemas emocionais depois de se envolver em um acidente que resultou na brutal morte de um segurança. Ao ser investigado, juntamente com outros colegas, sofre com assuntos relacionados à família, namoro e auto-estima.

É bem seguro dizer que, no deserto cinematográfico de hoje, das centenas de cineastas presentes, Gus Van Sant seja um dos únicos que realmente faça cinema. Afinal de contas, a definição de cinema foi perdida há alguns tempos em Hollywood, felizmente resgatada por alguns cineastas que ainda sabem o que é entrar numa sala escura e vivenciar os dramas e as emoções de um conflito, de uma aventura, ou de uma única pessoa. No seu mais novo filme, Van Sant explora um adolescente. Seu filme é esse adolescente, cujo nome é Alex, fácil de lembrar depois do mergulho intenso e alucinante nos medos e nos conflitos internos deste garoto. O que é mais estranho nisso tudo é o quanto difícil se torna apreciar a obra de arte de Van Sant. Suas pretensões são claras desde o início, principalmente para quem já conferiu os anteriores – e ótimos – Últimos Dias e Elefante, mas, em um filme onde minutos se passam sem diálogos e assistimos – muitas vezes – nada, é estranho poder extrair disso tudo virtudes, mas é o que acontece. Lentamente, vamos compreendendo e valorizando sua direção original e peculiar.

O filme pertence mesmo à Van Sant, que cria esse personagem com o qual aprendemos a nos simpatizar e logo o mergulha em uma sombria e angustiante jornada adentro de sí mesmo. Por isso, se torna igualmente conflitante para nós, meros espectadores, absorvidos pela obra. O cineasta marca mesmo pelo seu estudo psicológico e emocional de Alex, que ganha ajuda extra da atuação sincera e conquistadora de Gabe Nevins, uma revelação. Mas ainda assim, a impressão deixada no espectador é resultante da sincronia majestosa entre trilha, estética e personagem. Entende, Van Sant, como poucos que sabem, usa a música e o visual como diálogo. Ele conversa conosco através desses elementos. Não precisamos ouvir narrações de Alex, apesar de haverem. Muitas vezes, bastar escutarmos as músicas belíssimas inseridas por Van Sant ou observarmos, em meio à uma fotografia interessante e original, imagens e elementos que nos fazem entender um pouco mais sobre esse mundo problemático.

O filme só não conquista mais mesmo justamente por ser, digamos, difícil. É o mais complexo e peculiar de Van Sant e um que necessita de identificação por parte da audiência para conquistar de verdade. A verdade é que, se olharmos bem de perto, podemos ver um pouco de nós mesmos em Alex, que reflete não só insegurança, instabilidade e medo, mas pessimismo, angústia, agonia, êxtase, preso em seu corpo, incapaz de traduzir seus sentimentos, sem ninguém ao seu lado para lhe consolar e te dizer que tudo ficará bem. É uma imagem pessimista mesmo, da adolescência de hoje, ou talvez de nós mesmos, que já presenciamos atos de maldade tão assombradores quanto o testemunhado por Alex. Não é fácil viver sem medos na realidade de hoje, e mais difícil ainda é pôr esses medos e essas angústias para fora. Alguns mantenham se privados, por incapacidade ou mesmo falta de confiança e companheirismo. É assim que, aos poucos, vamos descendo até o sombrio.

Com trilha marcante e decisiva para tom e personalidade, o longa se torna lírico em sua viagem aos sentimentos humanos mais privados e sombrios. A câmera de Van Sant, abordando sempre olhares e expressões, trabalhando em cima de seus personagens e seus sentimentos. A bela fotografia influencia momentos como um passado no chuveiro, que transmite tanto significado quanto relevância. O filme de Van Sant é sobre a dor, a solidão e os momentos mais sombrios da vida. Todos nós já tivemos, ou teremos, um. Já nos sentimos sozinhos, e provavelmente a dor acompanhada por tal sentimento. A identificação, portanto, é fácil, basta se deixar ser levado, de alma e coração, para dentro do retrato nervoso e realista do diretor, que prima pelo simbolismo e a significância, e não o fácil e convencional. Nada é mastigado aqui, você precisa devorar o filme pouco a pouco para chegar ao que importa: o essêncial. E no poderoso filme de Van Sant, o essêncial encontra-se nos sentimentos.

Paranoid Park (2007)
Direção:
Gus Van Sant
Roteiro: Gus Van Sant, baseado em livro de Blake Nelson
Elenco: Gabe Nevins, Daniel Liu, Taylor Momsen, Jake Miller, Lauren McKinney
[Drama, 85 minutos]

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Responses

  1. Fiquei com curiosidade de ver o filme!
    —————————————

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  2. Cara, minha lista tá aumentando! Gostei da idéia desse filme, parece ser bem interessante!

  3. Acho que o Van Sant deu mais uma prova da grande fase na qual está, afinal “Paranoid Park” é mais um trabalho marcante em sua carreira – apesar que não se equivale à obra-prima “Elefante”. Também achei o uso da música muito interessante, cada vez mais ele melhora nesse aspecto. Abraço!

  4. Poxa, não vi. E sabe o que é pior? Saber que esteve em cartaz aqui e eu deixei passar. Para ver “O Olho do Mal”…

    No Words :-(

    Abraço!

  5. Cara, eu considero o Gus um dos grandes cineastas, imprime um estilo próprio, diferenciado e parece que tem prazer em fazer filmes e não os faz com interesses financeiros, pelo menos no primeiro momento, como muitos por aí qeu sempre mudam finais, alteram contextos apenas para agradar anunciantes, executivos, produtores e afins…
    Eu acho qeu a única coisa que não curti no filme… e que, por sso não tenha o igualado com o melhor dele: “elefante” tenha sido o carinha que fez o personagem principal, achei-o totalmente antipático no filme inteiro, parecia estar sendo obrigado a fazer o filme, ahahaha…. as vezes é o eprsonagem mesmo criado pelo Gus, mas não curti e não o compreendi… memso assim é um filme ótimo, que fala principalmente sobre rendição, o final poderia ter sido outro..
    abraços!!!

  6. Concordo plenamente quando você diz que “Paranoid Park” funciona por causa do Gus Van Sant. O filme é um sucesso devido à sucessão de ótimas decisões tomadas pelo diretor. A começar pelo uso da narrativa não-linear, passando pela trilha sonora e chegando na atuação do Gabe Nevins. É um filme sincero e que me conquistou.

  7. Putz, já vi muitas resenhas em outros blogs sobre esse novo filme do Van Sant, mas ainda não assisti.
    O último que vi do diretor foi Elefante e gostei muito.
    Esse parece ser bastante interessante também.
    Mais um excelente texto. Parabéns.

  8. Nossa, odiei esse filme. História curta que é prolongada por tempo demais, o ator protagonista é pouco eficiente, a edição interrompe a narrativa demais com as cenas das manobras e dos skatistas (e tudo piora, quando ele utiliza uma câmera lenta).

    Gus Van Sant já fez coisa melhor… =/

  9. Eai, Nossa mais um filme pra lista de ferias ein! Em Julho vou entar ver tdos os filmes interessantes que tu indicou aqui!!!

    Ta! Falta um pouquinho ainda, mais eu vou assistir o maximo que der.

  10. Esse é um filme que quero ver, apesar de não ser muito fã do cinema de Gus Van Sant.

    Abraço!!

  11. Não vi o filme, mas AMEI o banner novo! :P

  12. O banner novo fico ótimo, Wally! Ainda não vi PARANOID PARK. Confesso que tenho uma certa implicância com o Gus Van Sant. Mas todos parecem gostar deste filme. Vou conferir em breve.

    Abs!

  13. Agora eh oficial, eu acho que fui a unica cinefila na blogosfera que nao gostou desse filme. E nao eh por nao gostar do estilo atual do diretor, visto que adorei “Elefante”, o considero um dos melhores filmes que vi naquele ano. Dessa vez, nao consegui compreender as intencoes do cineasta, ou como vc colocou no texto, talvez faltou apenas identificacao com a personagem. Nao consegui gostar nem um pouco de Alex. E tb achei muito irritante a maneira que Van Sant retrata as adolescentes no filme.. Quem sabe uma revisita me faca ver o filme com outros olhos.

    Otimo texto, Wally!

  14. Ainda não vi o filme, vi Elefante e gostei demais!!!

  15. […] ao redor do país e inspirou tantos outros, é retratada aqui com muita paixão por Gus Van Sant (Paranoid Park), que também é homossexual e adapta seu filme de um roteiro exemplar de Dustin Lance Black que […]


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