Publicado por: Wally | Sábado, Maio 3, 2008

Sicko – $O$ Saúde


Império da amarga ilusão

Michael Moore investiga o sistema de saúde falho e ganancioso dos Estados Unidos, em reflexão a de outros países, e como depois do 11 de Setembro tudo mudou para pior.

Moore é um dos caras mais polêmicos da atualidade. Talvez o mais controverso de todos. Ele provoca ódio e intolerância, críticas e adoração. E ele não quer saber. Qualquer um outro teria parado, mas Moore continua, sempre controverso, nunca deixando a ácidez de lado, e sempre abordando temas importantes e essênciais para a sociedade atual, queira vivemos ou não no seu país. Isso o torna, de certa forma, em corajoso, e no cinema, isto se torna fator tremendo. O fato é que, certo ou errado, é um grande cineasta. Eu, por um lado, sempre apoiei seus ideais. Me divirto lendo seus livros e ele me presentiou com dois dos melhores documentários que já assisti: Tiros em Columbine e Fahrenheit 11 de Setembro. Seu novo filme não fica muito para trás, segue na linha de seus anteriores e entrega mais um esmagador soco no estômago. Sou brasileiro, não vivo naquela realidade. Mas não é por isso que eu não possa enxergar um pouco daquela realidade refletida na minha. E Moore mostra (mais uma vez) as características subdesenvolvidas do maior império do mundo, que proporciona, para seus cidadãos, não segurança, mas amargas ilusões.

Moore começa seu filme em uma hilariante referência à Star Wars, que funcionou brilhantemente e serviu como preparação da estrutura do longa, que é de completo humor. Porém, como em Tiros em Columbine, onde temos assombrosas sequências, em Sicko, somos constantemente tocados pelos depoimentos inseridos. Moore sabe manipular extremamente bem, e os depoimentos que insere são todos influentes e importantes, vencem nossos sentimentos, nossas considerações e entrega fundamento à idéia central do filme. Claro, tudo parece muito fácil. Os depoimentos são tão sofríveis que é impossível não ser tocado. E Moore sabe disso. Como já disse, é um cineasta esperto. Ele sabe o que faz. Só peca de verdade quando começa a fazer as constantes comparações do sistema de saúde dos Estados Unidos com de outros países de primeiro mundo. Acaba funcionando, porque faz muito sentido, mas ele prolonga demais. Seu ponto já havia sido provado, mas continuou. Pelo menos seu filme não é um show de uma idéia, e não se foca em apenas isso.

É minuciosa no seu retrato do sistema, desde o fator econômico, político, ao humano, Moore se sai eficiente ao focar todo esse mundo e toda tristeza por trás dele. Tanto que nossa tristeza dá lugar ao ódio quando ouvimos certo depoimento, de uma mulher cuja filha morreu por arrogância e dinheiro. Moore trabalha em cima desse ódio e vai construindo seu filme, ao ponto dele ultrapassar o fácil e continuar sua genialidade, sempre com idéias por trás da manga. É com isso que chegamos ao momento focado no 11 de Setembro. Moore não quer saber da tragédia em sí e nem muito de Bush, já fez isso. Ele foca os heróis sobreviventes e cria um contraste entre eles e os vilões presos em Guantanamo. Moore, em um ato de audacidade, desafia as estruturas do governo dos Estados Unidos ao confrontar os heróis doentes e desvalorizados com os vilões saudáveis e bem estruturados. Ele chega a conclusão de que Cuba é um lugar melhor para se viver. Sim, até mesmo Cuba. Duro, mas realista.

Seu filme provavelmente chega ao brilhantismo mesmo ao criar este contraste entre heróis e vilões. Sua tese é de que, às vezes, nossos amigos não são bons assim, e nossos vilões podem acabar sendo mais amigáveis dentro das circumstâncias. Foi assim com sua trama de Cuba e Guantanamo Bay, desenvolvendo o ódio dos americanos cada vez menos patrióticos e aprendendo a desvirtuar as amargas ilusões. Pena que poucos fazem isso. Moore até argumenta isso com uma experiência pessoal que faz extremo sentido, cercando um ódio de um americano por ele e como essa relação inimiga mudou a partir de um ato de solidariedade. Quem são nossos líderes? São quem devemos respeitar? Até que ponto podem nos ajudar? Moore sabe as respostas e as espalha pelo seu memorável e contundente filme, que é mais humano e sentimental que tudo que já fez. Funcionou muito bem, e ele já pode se chamar de não só um verdadeiro cineasta, mas um dos muitos americanos revoltados. Quaisquer sejas seus ideais, a máscara está caindo, e toda e qualquer ilusão amarga de patriotismo está se esvairando. Seu filme dói, e isso é maravilhoso.

Sicko (2007)
Direção:
Michael Moore
Roteiro: Michael Moore
Narração: Michael Moore
[Documentário, 123 minutos]

As Horas no Cine Pulp


Responses

  1. Wally, eu honestamente vendo com mais cautela e lendo algumas opiniões não achei tao bom como tinha achado aquele “Fahrenheit 9/11”, na epoca que o vi,a chei um máximo, mas não tenho a mesma opinião hj em dia… mesmo assim ainda é um grande docuemntário assim como o “tiros em columbine” melhor até que o Fahrenheit… por isso tenho minhas duvidas sobre a tal ‘grandiosidade’ de Michael Moore que tanto achava que ele tinha… mesmo assim acho indispensavel que se tenha um Michael Moore… na verdade gostaria muito de que o Brasil tivesse um michael moore por aqui, uma versão brasileira…
    Esse novo dele ainda não o vi… espero que encontre logo pelas locadoras…
    abraços!!!

  2. Por mais que as obras do Moore tenham um tom manipulativo, acho essencial que exista um diretor tão corajoso quanto ele (especialmente na época em que pouca gente não gostava do governo americano, sendo este bastante criticado na atualidade). Acho que foi por isso que gostei tanto de seu texto, especialmente de seu último parágrafo. Abraço!

  3. Gostei muito desse documentário. Ficava vacilando entre os risos e os espantamentos diante de tal realidade. Você tem razão: dói.

    Muito bom o seu texto.

  4. Ainda não assisti a este “Sicko”, mas concordo plenamente com o que você disse a respeito do Michael Moore. Além de controverso e polêmico, o diretor é muito esperto. Ele sabe como manipular as imagens de forma que elas mostrem o discurso que ele quer. De qualquer maneira, o que me surpreende nesse documentário é saber que o sistema de saúde dos EUA é tão problemático quanto o nosso. Que coisa, hein???

  5. Esse consta na minha lista. Só falta tempo!

  6. Choro por ainda não ter visto esse aí.
    Em breve o farei.
    Bom saber que Moore está afiado.

    Abraço!

  7. Não vi, pena mesmo. Percebo que a maioria das pessoas têm tido uma opinião favorável a respeito. Moore é um excelente cineasta, sabe como apontar os defeitos de um povo que muitos vêem como o exemplo mundial em qualquer quesito.
    Quero conferir!
    Abraço!

  8. Ah, eu tava doido pra ver Sicko, mas acabei perdendo…

    Vou esperar para ver em DVD mesmo…

  9. Mais uma vez, um excelente texto.
    O único documentário do Moore que assisti foi Roger & Eu, muito bom por sinal.

    Nem Tiros em Columbine, nem Fahrenheit 11/9 eu vi.
    Quero muito ver esse Sicko, parece ser ótimo.

  10. Michael Moore é o cara. Depois do documentário do 11 de setembro, virei fã dele. Espetacular!

  11. Rodrigo, meu preferido dele é o assombroso e preciso Tiros em Columbine, mas Fahrenheit 11 de Setembro foi arquitetado com extremo humor, competência, genialismo e, acima de tudo, coragem. Sicko considero aquém desses dois filmes, mas nem por isso merece ser desmerecido.

    Vinicius, que bom que gostou. :D E é isso mesmo. Ele manipula. Mas faz isso espetácularmente bem.

    Laís, brigadão, e realmente oscila entre risos, sustos e fortes emoções.

    Kamila, é assustador mesmo. Mas é a realidade. Retratada brilhantemente por Moore, mais uma vez ácido e necessário.

    Isabela, merece ser visto, sem dúvida.

    Pedro, minha fé com Moore não se esgotará tão fácil. Adoro seus filmes.

    Weiner, é muito bom o filme. Acho que você vai gostar. Procure conferir sim.

    Marco, é um filme merecido de uma sessão nos cinemas, mas documentários, às vezes, são até melhores em DVD mesmo.

    Ibertson, Roger e Eu não assisti, mas sugiro seus dois mais polêmicos filmes antes de você assistir este Sicko, pois possuem certos paralelos.

    Robson, ele é ótimo mesmo. Já que você gosta, veja Sicko o mais rápido possível.

    Ciao!


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