Publicado por: Wally | Domingo, Abril 27, 2008

Sangue Negro


Seu ódio será nossa herança

Na virada do século, um próspero homem de negócios busca se aprofundar ao máximo na terra e se tornar milionário explorando petróleo e passando por cima das pessoas. Sua busca pelo poder, ao lado de seu jovem garoto, rodeia elementos como família, cobiça, religião e, claro, petróleo.

Sangue Negro é um filme tenso. Somos absorvidos desde a cena inícial tenebrosa até o desfecho intenso. Não existe sossego ao presenciarmos essa grande obra do cinema contemporâneo. O filme todo é carregado por uma aura pungente de mistério, que age como um imã, puxando o espectador para dentro de sua narrativa e conseqüentemente, para dentro de seus personagens. É o mais impressionante neste filme altamente fascinante, cujos artíficios técnicos atingem a perfeição, mas torna se inevitável se apaixonar pela direção sensacional de Paul Thomas Anderson que, diferente de tudo que já fez, arquiteta um filme sólido, poderoso e arrebatador em suas ambições e conquistas. Se existe uma obra-prima que irá influenciar filmes e mais filmes com o passar do tempo, será lembrada por seus feitos técnicos e suas virtudes incontestáveis, será esse filme aqui, que por sua vez, parece ter nascido das influências de grandes diretores, como John Huston (do qual o diretor confessa ter se inspirado totalmente) e Stanley Kubrick. Isso se torna bem claro no primeiro ato do filme, mais especificamente, seus primeiros minutos. Onde a tensão é palpável, não existem diálogos e a trilha nos remete diretamente aos filmes tensos do gênio por trás de filmes como Laranja Mecânica e 2001.

A trilha sonora, aguda e poderosa, se transforma em um personagem. É do guitarrista da banda ótima Radiohead, e se revela não só única em sua composição, ao mesmo tempo que inspirada justamente nas trilhas dos filmes de Kubrick. Sempe conquistando por completo os sentidos do espectador, define se a cena será aquela tensão intensa ou aquela crescente, onde vamos lentamente sendo liderados à algo que está por vir, desavisado. Nesse sentido, a fotografia igüalmente se torna essêncial. A câmera de Anderson não é nervosa, ou agitada, mas ela persegue seus personagens com um senso grandioso e de extremo mistério, como se o espectador estivesse seguindo os personagens, não sabendo exatamente o que virá a seguir e por isso, ser surpreendido pelo que é mostrado na tela, sempre muito bem fotografado, com iluminação perfeita e focando sempre o que deve ser focada. Não existe gorduras ou imagens descartáveis. Existem significados por trás de tudo mostrado em tela. Portanto, muita da magnitudade do filme, do espetáculo, do vislumbre, pertence à sua parte técnica e na direção inventiva de Anderson, que é vibrante e ainda conta com excelente montagem, além de fenomênal direção de arte.

Mas muito além dessa parte técnica e apesar de ser inquestionável adicionarem muito a obra, temos uma profunda, assombradora história. O personagem, Daniel Plainview, se torna um dos mais fascinantes da história do cinema. Ora pela densidade do roteiro e sua construção magistral, ora pelo desempenho extraordinário de Daniel Day-Lewis, numa atuação incrível em todos os sentidos e completamente merecedora dos prêmios que abocanhou. Sua emblemática performance marca, e oferece um paralelo interesante ao personagem interpretado brilhantemente por Paul Dano, super subestimado. Os personagens oferecem uma dualidade única que move muito do filme e entretem, pelo embate de idéias e personalidades. São distintos e ao mesmo tempo muito parecidos. Eles representam os dois lados de uma moeda. No final, é provado significativamente que no mundo de hoje, os fortes prevalecem e os fracos definham. Alias, o desfecho do filme é discutível, denso e elaborado como poucos. É construído sobre camadas e camadas de simbolismo e é repleto de virtudes, desse os desempenhos dos atores à forma como Anderson conduz a cena magnífica. O diálogo final prende à nossa cabeça como poucos. Talvez por resumir tanto a realidade na qual vivemos, onde nações e pessoas passam por cima de tudo e todos para chegarem aonde quer.

Plainview representa o mal em pessoa. Ele é ganancioso, poderoso e vai aos limites. Ele matará, sacrificará até chegar onde quer. Ele é retratado de uma forma magnífica por Anderson. Afinal de contas, ele faz o personagem se tornar instigante ao mesmo tempo que o vemos como ele realmente é: um grande bastardo. Nós aproximamos dele ao mesmo tempo que odiamos ele. Seu ódio pelo ser humano se torna em nosso ódio por ele, mas talvez por ser uma pessoa tridimensional tão intrigante e fascinante, não o resistimos. E o desempenho de Lewis foi chave nesse quesito. Por isso se torna ainda mais impressionante o final, que espelha os destinos estranhamente incríveis de seus dois personagens, que de pretensões parecidas terminaram em estradas diferentes. O filme de Anderson é um estudo de personagem como poucos, e ao vermos o personagem de Plainview ao final, completamente sem alma, sentimos algo. Esse sentimento é a força do cinema. Mais especificamente, a força do cinema de Anderson, excepcional em todos os sentidos imagináveis. Seu filme não só impressiona e fascina, mas satisfaz, integralmente, quem busca ser satisfeito, na sala de cinema, ao embarcar numa jornada irretocável aos confins da mente humana. O filme é assombrador, meche com os sentidos, com a cabeça, com os nervos. Espetácular. Nada que for dito fará jus ao poder aqui presente, e nunca o ódio de uma pessoa rendeu uma herança tão grande aos cinéfilos.

There Will Be Blood (2007)
Direção:
Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson, baseado em livro de Upton Sinclair
Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Dillon Freasier, David Willis, Kevin J. O’Connor
[Drama, 158 minutos]


Responses

  1. Não poderia concordar mais com tudo que você comentou! Incrível como o Paul Thomas Anderson realiza um trabalho totalmente diferente de seus filmes anteriores, mas novamente realizou uma obra-prima. E o personagem do Day-Lewis é um dos melhores da história do cinema mesmo, memorável! Bom domingo.

  2. Um filme estupendo! E olha que nem sou grande fã de PTA. Mas em SANGUE NEGRO, digam o que quiserem, mas esse é o melhor filme do diretor. Uma obra-prima que deve ser reconhecida mesmo na época de seu lançamento.

    O trabalho do diretor deve ser reconhecido, louvado. Até mesmo pq só falam por aí no Daniel Day-Lewis, que é magnífico, mas SANGUE NEGRO não é só ele.

    Abs! E desculpe-me… esqueci de vc lá no blog, mas já respondi :(

    Bom domingo!

  3. Que texto apaixonado para um filme que não me apaixonou tanto assim.

    Mas, você observa elementos interessantes e que me fizeram entender bem mais esta obra. Realmente, “Sangue Negro” faz um estudo de um personagem que representa valores típicos da sociedade norte-americana (a ambição, a competição, a vontade de vencer).

    E, mais do que isso, como você bem disse, é um filme feito de camadas. Em que cada elemento presente nos ajuda a compreender sua trama. No final, “Sangue Negro” é uma daquelas obras que se desnuda cada vez mais para nós em futuras visitas e acho que tende mesmo a ficar melhor com o tempo.

  4. Dos nomeados ao Oscar resta conferir “Conduta de Risco” e este “Sangue Negro” (devo ser o único blogueiro que ainda não conferiu a ambos). Pelo visto, todas as qualidades que você descreve se assemelha a de toda a maioria que também adorou o filme. Se tudo der certo, tentarei assisti-lo na próxima semana.

  5. barbaridade!! tenho que ver esse filme… nunca veio pra cá na minha cidade.. maldita cidadezinha de merda do caramba!!! ahaha
    abraços!!!

  6. Quero assistí-lo. Está aqui no meu computador. Em breve verei e comentarei melhor aqui!

    Abraço!

  7. Assim como a Kamila, o filme não me apaixonou tanto. Reconheço os brilhantismos do filme (entre eles a melhor direção da carreira de Anderson e Day-Lewis no melhor desempenho masculino da década), mas não fui hipnotizado por ele. De Anderson, ainda prefiro “Magnólia”.
    NOTA: 8.0 (*** 1/2)

  8. sem duvidas estou sem muito tempo para filmes, basta dizer que ainda nao consegui assistir a esse que dizem ser um dos grandes desse ano!

  9. Wally, tá ai mais um filme muit elogiado, indicado ao OSCAR e que eu não achei nenhum pouco interessante! AHSDHSUHD!!!

    Eu acho que sou meio ao contrário da maioria mesmo, achei esse filme mais que sem graça, acho que ele não merecia nem ao menos ser mencionado no OSCAR!

  10. Wally, texto inspiradissimo, concordo com todas as suas observacoes, da trilha sonora como personagem crucial do filme, do embate entre os dois personagens (o de Lewis e de Dano), tao distintos, mas ao mesmo tempo, tao parecidos, e a fascinacao que a personalidade de Plainview provoca no espectador.

    Tb achei interessante a observacao ao fim, sobre as atitudes do ambicioso e “sem alma” Plainview como metafora politica-economica. Merecia bem mais o Oscar do que o filme dos Coen. E Dano e a trilha sonora nao receberam indicacoes, pelo que eu me lembre..um absurdo.

  11. Concerteza o filme mais Superestimado do ano ao lado de Juno.

    Ainda bem que não venceram o Oscar de Melhor Filme.

  12. Brilhante texto para um brilhante filme! Adorei esse longa, especialmente pelas referencias a 2001 Uma Odisseia no Espaço

  13. Não existem palavras suficientes para designar uma obra tão grandiosa como “Sangue Negro”. Paul Thomas Anderson levou às telas um exemplo vivo sobre a ganância humana, adaptando o livro “Oil” e dirigindo soberbamente. Fora toda a magnitude das interpretações (Day-Lewis, Paul Dano e Dillon Freasier), a fotografia, a trilha sonora dramática e macabra, direção de arte e figurinos exuberantes. É uma obra completa do início ao fim, nota 10 sem pestanejar uma única vez.
    Abraço!

  14. O melhor dos indicados ao Oscar.
    Quer um motivo para gostar de Sangue Negro, o filme do PTA deixou o Tropa ganhar o Urso de Ouro em Berlim.

    9.0

    Abraço, Wally!

  15. Hmm… revi AKIRA no sábado! Quero ler seu comentário depois. Abs!

  16. Vinicius, exatamente isso mesmo! Uma obra-prima para os séculos!

    Otavio, o filme com certeza não é só de Day-Lewis. É dele, Anderson, Dano, Greenwood, e por assim vai. Um filme perfeito. Só que guardo uma certa afeição por Magnólia. Porém, a evolução de Anderson como diretor é inquestionável! E adorei AKIRA. Só não o considero obra-prima.

    Kamila, todos pontos essênciais! Uma pena que não se apaixonou.

    Alex, só espero que não seja chato, como de comum, rsrsrsrsrsrs. Brincadeira, vai gostar sim, é excelente!

    Rodrigo, veja imediatamente!

    Matheus, é um filme que manteve distância mesmo de certas pessoas. Mas eu me apaixonei por cada segundo dele.

    Isabela, veja logo, é maravilhoso!

    Lucas, uma pena que não gostou. Eu achei que até merecia o Oscar de melhor filme.

    Romeika, muito obrigado. Eu acho que uma das maiores injustiças do Oscar foi Sangue Negro, que merecia levar, ao lado de ator e fotografia, filme e diretor. E faltaram mesmo indicações à Dano e à trilha, mas esta foi desclassificada por não ser 100% original. Uma pena. Foi a melhor do ano ao lado da de Atonement.

    Nando, Juno vencer o Oscar de melhor filme eu concordaria com o exagero. Acho maravilhoso mas tinham pelo menos 3 filmes melhores concorrendo, e Sangue Negro foi um deles, que merecia mais que duas estatuetas apenas, incluindo o de melhor filme.

    Weiner, é soberbo mesmo! Um 10 sem exageros!

    Pedro, concordo, merecia o Oscar.

    Ciao!

  17. não havia me interessado pelo enredo deste filme antes de ler os comentários neste blog, algumas críticas negativas (o que é normal, agradar a todos é impossivel!!!? ) e muitas positivas, estou baixando este filme agora!!! depois de ver volto aqui e deixo outro comen!!!


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