Publicado por: Wally | Sexta-feira, Abril 25, 2008

Na Natureza Selvagem


Um certo olhar

Depois de se formar da Universidade, estudante exemplar Christopher McCandless abandona todos os seus pertences, doa os $24 mil em sua conta para caridade e enfrenta a natureza, a caminho do Alaska. Deixa para trás sua família, pais e irmã, e durante sua jornada, encontra personagens que moldam seu caminho.

Poético, este novo filme dirigido por Sean Penn tem que ser um dos mais belos que eu já presenciei. Penn lança um olhar curioso e fascinante sobre as relações humanas, a sociedade consumista que consome a população, e a reação única de uma pessoa que não só entende o poder e força por trás da beleza da Terra, mas cede a ela, de corpo e alma. O personagem é Christopher McCandless, verídico, se cansou da sociedade, do capitalismo, do convencionalismo e toda a hipocrisia por trás de sua família, mais especificamente seus pais. Ele partiu em jornada de auto-descobrimento, aprendendo no caminho não só um pouco sobre sí mesmo, mas sobre como existe uma vida inteira por trás das coisas. É com isso que lembro imediatamente de Beleza Americana, meu pessoal preferido, que fala justamente sobre essa habilidade em poder enxergar beleza além do que os olhos vêem. Olhar além do superficial. E o olhar de Penn é deslumbrante, sincero e emocionante. Não é um filme perfeito, e talvez um muito longo, mas é arrebatador mesmo assim.

O filme tem algo muito profundo a dizer, e consegue esse feito muitas vezes sem o utilizo de palavras. É lírico em sua narrativa e contundente ao fotografar com genialidade paisagens que vão além do mero “cartão-postal”, se transformando em momumentos. Monumentos estes que tanto definem a jornada de Chris. Ou seja, a fotografia é um elemento chave, belíssima, sem o qual o filme de Penn ficaria seco, visto que é sobre justamente olhares, beleza e a força da natureza. Mas aí seria injusto não dizer que a trilha sonora é tão importante ou mais. Eddie Vedder, do Pearl Jam, escreveu e compôs todas as inúmeras e belíssimas canções do filme, viciantes e que adicionam espírito e alma ao longa-metragem, o consolidando como uma força cinematográfica que fala por sí só com apenas imagens e visuais. Mas apesar de cinema se tornar grandioso justamente por esses motivos, o filme de Penn é mais. As palavras, presentes nas narrações emblemáticas de Chris e sua irmã, são poderosas, traduzem grande sentimento e conquistam por completo o espectador com sua beleza e seu valor.

Para complementar, uma montagem excepcional, fazendo com que as passagens no tempo nunca comprometam o resultado final. Pelo contrário, só o deixa mais interessante. Mas além de tudo isso, toda essa glória estética, temos o núcleo e a melhor parte do filme. Trata-se do personagem de Christopher, sem dúvida um dos mais interessantes e fascinantes que o cinema já proporcionou. Não é só sua jornada que mexe com nossos sentidos, desafiando e encantando, mas toda a profundidade com o qual é construído. Melhor ainda, ganha uma virtuosa e extraordinária atuação de Emile Hirsch. É a grande revelação do jovem ator, mesmo que já tenha encantado antes em Heróis Imaginários e Alpha Dog. Nada se iguala à esse trabalho. Hirsch lembra os extremos aos quais Christian Bale foi nos seus papeis nos filmes O Operário e O Sobrevivente. É assustadora sua performance. Mas ao seu lado aindam restam brilho de sobra para Marcia Gay Harden, William Hurt, Jean Malone, Catherine Keener, Vince Vaughn, Kristen Stewart e, claro, Hal Holbrook, que numa simples atuação transmite emoção de sobra, que contageia o espectador completamente. É um dos grandes prazeres da sessão.

Retratando uma fuga dos podres da sociedade, Na Natureza Selvagem, é, acima de tudo, um olhar. Sobre emoções, sobre pessoas, sobre forças, sobre a natureza, sobre beleza. Não é por nada que o filme seja finalizado com um último, fulminante e intenso olhar, vindo de seu personagem princípal. Poucas vezes olhares dizem tanto. Isso ocorreu uma vez antes: em Beleza Americana, com o personagem de Lester Burnham. Não só Lester, mas Ricky Fitts, outro personagem do filme que, como Christopher, aprendeu a valorizar sua vida além dos habituais tiques nervosos da sociedade, ele compreende a força benevolente por trás das coisas. Por isso, é altamente relevante parafreasear um diálogo do filme de Sam Mendes: “É como se Deus estivesse olhando diretamente para você, e por um segundo, se você for cuidadoso…você consegue olhar de volta.” No filme, Ricky resume o momento onde observou uma pessoa morta na rua congelada. O sentimento de Ricky pode ser impregado ao sentimento final de Christopher McCandless, cujo último olhar não só diz rios e rios, mas é simbólico ao mostrar que talvez, depois de tanto sofrimento, de tanta perseverância, Chris tenha encontrado o que ele procurava. Talvez, naquele seu certo olhar, ele viu Deus olhando para ti e quem sabe, talvez conseguiu olhar de volta. Essa é a beleza de verdade.

Into the Wild (2007)
Direção:
Sean Penn
Roteiro: Sean Penn, baseado no livro de Jon Krakauer
Elenco: Emile Hirsch, Hal Holbrook, Catherine Keener, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Vince Vaughn, Kristen Stewart
[Drama, 148 minutos]


Responses

  1. Eai Wally, tdo certOOO? Vixe tu sabe que eu nao curto muito filmes assim! HAUSHDUH!!
    ~~ Tipo essa historia de uma pessoa que doa todo seu dinheiro para os pobres e vai querer “dar a volta ao mundo” pra mim é um clichÊ: KAJDKSJDK! Não que eu nao acredite, mais se tu for ver pode ser até que aconteça; mais é uma coisa que é 1 em 500!!! Mais seu texto está otimo, como sempre, mais esse filme é um que eu não veria!

    Passa lá? estamos de visual novooO!!!

  2. Gosto de Sean Penn, apesar dele ter dirigido poucos filmes, acredito que tenha uma boa carreira pela frente nesse cargo. Gostei dos seus comentários, sem sombras de dúvida irei vê-lo!!

    Abraço!

  3. Wally, vc interpretou o filme de uma maneira romantica, eu diria. Eu nao entendo muito bem o personagem principal, ainda que nao seja realmente importante. Como muitos me identifico com alguns de seus ideais, mas ao mesmo tempo acho injustificavel o que ele fez sua familia passar. Mas tirando esse olhar “moralista” com relacao a historia real, concordo que Penn fez um otimo filme, que merecia muito mais reconhecimento por parte das premiacoes passadas.

  4. Ta ai um filme maravilhoso e SUBEstimado!

    Nota: 9,5 para este Into the Wild.

  5. Wally, que lindo texto.

    Estou doida para assistir “Na Natureza Selvagem” porque acho o personagem Christopher McCandless muito interessante. Quero entender o por quê de suas escolhas e de sua busca.

    Bom final de semana!

  6. Cara, estou querendo muito ver esse filme.
    Não vi uma crítica negativa sobre ele.
    Espero que chegue logo em DVD.
    Abraço!

  7. Wally, nesse filme, Sean Penn mostrou ser competente após alguns filmes esqeuciveis.. ele já tinha mostrado competencia em um curta sobre o 11 de semtembro e agora com essa história fantastica…
    Já tinha me expressado no meu blog sobre esse filme e a reação que ele me causou.. só pela tal reação que tive no final dele, o considero como o filme mais bonito que já vi nessa nova safra…
    uma nota 10 seria pouco…
    abraços!!!

  8. Acho que o excesso de ‘poesia’ atrapalhou um pouco o resultado, ainda que seja um belo trabalho de direção (o roteiro é ainda melhor) e um esforço incrível em termos de interpretação – destaque óbvio para o Emile Hirsch. Esperava bem mais, porém não deixa de ser um ótimo filme. Abraço!

  9. É um filme muito bom, sim, não ouso negar. Mas sofro de um problema denominado nível de expectativa. E deixei que recaísse uma dose exagerada sobre “Na Natureza Selvagem”. Queria deparar-me com um dos melhores filmes do ano, mas terminei por ver um longa metragem emocionante, sim, mas nada de extraordinário. Ótima direção de Penn e ótimos Hirsch e Holbrook.
    Faltou um “quê” para atingir a quinta estrela.
    Nota: 8,5
    Abraço!

  10. Rapaz, agora você se superou! E adorei essa ligação com BELEZA AMERICANA! Faz todo o sentido! Parabéns!!!!!

    E você já sabe o que eu acho desse filme, né? Na verdade, o Sean Penn me pagou um belo salário pra fazer propaganda de INTO THE WILD.

    Abs! Bom final de semana!

  11. Acho que por eu ter esperado demais do filme me decepcionei um pouco, já que não gostei como a maioria. No entanto, devo reconhecer o incrível trabalho de Sean Penn e principalmente de Emile Hirsch que, visualmente, se sentragram de corpo e alma para o projeto. As canções de Eddie Vedder também são memoráveis.
    NOTA: 8.0

  12. Ótimo filme, subestimado em absoluto, bem como seu diretor.

    Adorei o diálogo dos personagens de Hirsch e Vaughn naquela cena do bar.

    8.0

    Abraço!!!

  13. Wally, este seu último parágrafo está sensacional. Até aumentou a minha vontade em ver o filme, que tenho numa cópia em DVD. Vamos ver se vai ser com este filme que Sean Penn me surpreenderá como diretor, já que ainda não vi sua estréia por trás das câmeras e não gostei do resultado de “A Promessa”.
    Um Abraço!

  14. Lucas, o filme foge totalmente do cliché por seu personagem ser tão denso e interessante. Vale a pena ver!

    Robson, veja sim, Penn se revelou estupendo diretor.

    Romeika, eu realmente me apaixonei pelo filme. E o personagem é completamente discutível. Uma das coisas que torna o filme ainda mais forte.

    Fernando, concordo que foi subestimado, mas é por se tratar de uma questão de indentificação.

    Kamila, obrigado e o núcleo do filme É o personagem interessante.

    Ibertson, ele não merece uma crítica negativa, por isso.

    Rodrigo, minha nota é 9, mas amei o filme. Soberbo!

    Vinicius, a expectátiva trabalhou contra no caso de muita gente. Eu me apaixonei pelo filme e portanto isso não fez diferença.

    Weiner, eu encontei o “que” e me apaixonei com o filme. Pena que não tenha acontecido o mesmo com você.

    Otavio, muito obrigado! E elogiar o filme é a coisa mais fácil do mundo.

    Matheus, eu gostei mais do que a maioria das pessoas, isso é fato.

    Pedro, bem subestimado mesmo, o que é uma pena.

    Alex, muito obrigado e espero que você veja logo, é excepcional.

    Ciao!

  15. […] manipulação. À frente deste símbolo, uma atuação perfeita da sempre grande Marcia Gay Harden (Na Natureza Selvagem), que interpreta sua fanática religiosa com tamanha genuínade que assusta. Alias, o grande […]


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