Publicado por: Wally | Quinta-feira, Abril 17, 2008

Valente

Lançamento direto em DVD

Marcas da incerteza

Erica Bain é uma locutora de rádio que valoriza a cidade onde vive, Nova York. Até o dia em que ela e seu noivo sofrem brutais atos de violência. Erica não se livra da angústia e, para consolidar-se com suas perdas e sua conciência, parte em uma busca de vingança, se tornando uma espécie de vigilante no caminho.

Algumas pessoas passam a vida inteira buscando respostas. As perguntas são diversas, os questionamentos éticos e morais intermináveis e muitas vezes vivemos em um rio de incerteza. Em Valente, surge a marcante personagem Erica Bain que, após sofrer um trágico acontecimeno que a deixa traumatizada e angustiada em diversas maneiras, se vê frágil e completamente vulnerável ao mundo violento que a cerca. Bain não consegue lidar com a pressão desse mundo, se revolta com seus antigos ideais e com pessoas que simplesmente vêem tudo acontecer sem tomar alguma espécie de postura. Ela decide, então, tomar uma ação. Mas a busca de vingança de Erica se torna algo mais amargo e intenso quando ela se vê armada a cada acontecimento tenebroso nas ruas de Nova York. Erica, como nós, busca respostas. Mas ao redor dela, criam-se apenas mais e mais questionamentos. O que é certo e errado, por exemplo. O filme do sensacional Neil Jordan cria um paradoxo, dos mais assombradores. Pena que, como a realidade que o filme retrata, seja tão incerto e desequilibrado.

O filme deve essa sua falha principalmente ao roteiro. Apesar de criar em Erica uma personagem forte e consistente, ter diálogos poderosos e levantar questões relevantes, nunca decide o tom que quer investigar. Por isso, o filme oscila irritantemente entre o leve e o pesado. E para um filme cujo tema é tão forte e assombrador, não se pode ser leve, ou descompromissado. É o sentimento que nos deixa ao final. Após um polêmico clímax, o diretor nos deixa tirar nossas próprias conclusões acerca dos atos dos personagens, excelente escolha, mas seu filme termina leve demais. Ao contrário de Medo da Verdade, que estimula um questionamento pesado e intenso na cabeça do espectador ao final da sessão, em Valente, o que importa é o que aconteceu durante o filme, e não ao seu término. O filme vence, porém, em praticamente todos os outros quesitos. A começar pela estética, com uma belíssima fotografia, realizando ousados movimentos de câmera e instigando o espectador para o mundo interno e privado da cabeça de Erica. Uma trilha formidável concretizada pela canção final ótima “Answer” e claro, um contundente elenco, onde podemos encontrar, além do ótimo Terrence Howard, uma Jodie Foster soberba, como era de se esperar.

Mas o mais impressionante é como Jordan aborda o mundo pessimista e sombrio, complexo e pesado. Ele consegue deixar sua marca na audiência. Alias, Valente é um belo caso do que uma direção criativa, ousada e densa consegue fazer com um roteiro de muitos baixos. Não só movimentos de câmera e montagens excepcionais (o momento que oscila a chegada de Erica ao hospital e uma cena de sexo chega a ser impecável), mas como Jordan se apoia completamente no estudo de personagem, e com isso, se sai bem sucedido, fascinando e impressionando ao longo do caminho. Uma pena que nem tudo funcione a favor, e o filme não possa passar de uma sessão gratificante e relevante para cinema verdadeiramente essêncial. Chegou perto, graças ao talento de Jordan. A verdade é que, apesar das inconsistências e incertezas, o filme é duro em seu desafio a audiência, por criar essa parábola acerca de violência, vingança e justiça, e todos os elementos que giram em torno desses fatores brutos.

Você sente por Erica, acompanha sua jornada, vibra com ela, se identifica com ela, simpatiza por ela e fica angustiado com ela. Ela retrata nós, estigmatizados pela estigmatizada sociedade. Vulneráveis e amedrontados, cercado por pessímismo, violência e, claro, incertezas. Onde podemos buscar nossas respostas? Talvez em nós mesmos, nos próximos, mas pode ser inatingível. O problema é quando nos transformamos em criaturas em que nem nós mesmos conseguimos compreender. A partir daí, o rio vira um mar imenso e profundo. Precisamos ter cuidado para não nos perdermos nele, ou afundarmos. Precisamos aprender a ter algo em que (ou quem) segurar. Talvez seja a única maneira de encontrarmos luz além do obscuro, como outro filme belíssimo deste ano já conseguiu provar, Persépolis.

“I will be the answer/At the end of the line/I will be there for you/While you take the time/In the burning of uncertainty/I will be your solid ground/I will hold the balance/If you can’t look down” – “Answer” de Sarah McLachlan

The Brave One (2007)
Direção:
Neil Jordan
Roteiro: Roderick Taylor, Bruce A. Taylor & Cynthia Mort
Elenco: Jodie Foster, Terrence Howard, Nicky Katt, Naveen Andrews, Mary Steenburgen & Ene Oloja
[Drama, 122 minutos]

No Cine Pulp: Viagem a Darjeeling de Wes Anderson


Responses

  1. Tomara que o encontre na minha proxima ída as locadoras… aparenta ser realmente muito bom.
    Adoro os trabalhos da Jodie Foster,mas confesso que tenho um pé átras, quando o personagem principal é uma mulher vingativa.. Vi poucos filmes com essa temática que seja bom, tomara que inclua esse na minha lista…
    abraços, Wally!!!

  2. Eu estou com esse filme aqui em casa, mas ainda não tive tempo para assistir. Gosto muito de tramas como a de “Valente” e, mesmo com as falhas, acho que é o tipo de filme que eu irei adorar.

  3. É um filme que quero ver mais pela Jodie do que por qualquer outro atrativo que o filme possa ter.
    Boa dica!

  4. Ainda não vi, mas é uma boa pedida para o feriadão!

    Agora, esse cabelinho da Jodie Foster ficou bem legal. Parece que ela está com cara de assassina de histórias em quadrinhos.

    Abs!

  5. Um filme com pequenas falhas no roteiro, mas com mais uma excelente atuação da Jodie Foster e do Terence Haward.

  6. Mais uma vez, grande texto Wally! Valeu pela dica do nome trocado de Reencarnação!

  7. Wally. vlw pelo comentt!!!
    Então mais um filmee que eu nao conhecia, pra te falar a verdade eu ando meio longe de filmes… a coisa ta feia por aqui e eu nao to tendo tempo pra nada!
    ~ Mais logo atualizo minha lista de filmes!!

    Moonligh é muito bom mesmo, tu deveria ver! Tipo o começo da serie até pode não te agradar muito como nao me agradou, maid spois de alguns episodios a serie se torna excelente!!!! voltaH!

  8. Wally, ADOREI seu texto! Você soube analisar muito bem toda a história de “Valente”. No entanto, você gostou mais do filme do que eu – achei irregular e um pouco qustionável em certos momentos. Mas com certeza vale a locação por causa da atuação da Jodie Foster.
    NOTA: 6.0

  9. Wally me desculpe sair do tema do filmes, mas tenho que dizer:

    Suas críticas do RE tem um grande defeito.

    Você diz que os fãs críticaram o terceiro filme, por não ser fiel ao jogo. Muito pelo contrario, os fãs acharam o terceiro filme o melhor.

    Os outros dois não foram fieis, e ainda mudaram a historia.

    Percebe Wallyson que você nunca jogou os games da CAPCOM. Se não suas críticas lá no Cine Pulp seriam melhores!

    Abraço!

  10. Adorei sua resenha do filme. Estou a tempos querendo ver. Fui tentar alugar hoje para o feriado, mas estava locado.
    A Jodie Foster está parecendo com a Aya Brea, do game Parasite Eve hehehehe

  11. Sem dúvida é um bom filme e tem alguns momentos de grande tensão – especialmente na sua primeira parte, excelente. Entretanto, a trama é desenvolvida de maneira trivial e chega a um dos defechos mais controversos dos últimos anos. Vale pela Jodie Foster, apesar do final equivocado.

  12. Rodrigo, não é uma maravilha, mas é um bom filme, sem dúvida, merece ser visto.

    Kamila, mesmo com as falhas, eu gostei, bastante.

    Pedro, Foster é o maior atrativo, ao lado da direção de Jordan.

    Otavio, não tinha notado isso, legal. O filme é bom e merece ser visto.

    Isabela, concordo plenamente.

    Daniell, brigadão e por nada.

    Lucas, vale a pena ver e tentarei ver o seriado.

    Matheus
    , é um filme falho mesmo, mas gostei. Brigadão pelo elogio.

    Hypado, talvez eu tenha me direcionado errado. Eu não quis dizer que os filmes sejam fieis ao jogo, principalmente por que não jogei. Minha intenção é dizer o quanto eles estão ligados, entorpecidos, limitados, por causa da visão digitalizada de games. O terceiro foi o único que conseguiu ser cinema de verdade, e não um mero produto com aspirações de videogame.

    Ibertson, é bom filme e vale a pena pegar. Obrigado também.

    Vinicius, também achei falho. Mas é difícil resisti-lo por causa de sua densidade e valores inquestionáveis. Bom filme.

    Ciao!

  13. Jodie Foster tem uma representação que passa bem o sentimento da mulher fria que tem que enfrentar um medo, mas que, ao mesmo tempo, quer reencontrar o seu próprio eu (ela reconhece que não volta) em busca da ‘sua’ própria justiça. É o ponto forte.

    O final, quanto a mim, é o ponto fraco. Um final algo ‘enrolado’.

    A minha classificação: 8/10

  14. […] literal do alter-ego da personagem interpretada com leveza admirável por Jodie Foster (Valente). Cheia de entusiasmo, interpreta uma escritora insegura e sofrendo de síndromes não refletidas […]


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