Publicado por: Wally | Quinta-feira, Abril 10, 2008

Persépolis


Uma luz no obscuro

A história de Marjane Satrapi, garota precoce e esperta, desde sua infância conturbada em um país mergulhado em rebeliões e revoluções, passando por sua adolescência, até sua chegada à idade adulta.

A beleza encontrada na animação Persépolis é uma interminável, rara e esplêndida. Além de servir como prova definitiva (ao lado de exemplos recentes como Ratatouille) que as animações de hoje não são apenas para as crianças. Principalmente porque, desde muito tempo que animações da Disney vem demonstrando magia e capacidade o suficiente para enfeitiçar crianças e adultos juntos. Mas Persépolis é um caso raro, original. Ao lado do recente – e igualmente francês – As Bicicletas de Belleville, é uma animação séria e completamente adulta, que narra com uma narrativa forte e contundente a vida fascinante da precoce Marjane Satrapi, que por sinal é diretora e roteirista do filme, ao lado de Vincent Paronnaud. O belo filme da dupla é um maravilhoso exercício de estilo e estética, transformando seu preto e branco em um luxuoso visual convidativo. Mas equilibrando, vencem o desafio estilo x substância e arquitetam uma obra primorosa e comovente, cuja personagem principal já virou marco do cinema contemporâneo.

Talvez o que mais tenha me impressionado no filme seja a direção mesmo. O simbolismo constante e sempre significativo, cativando e fascinando por meio de sutilezas magníficas, torna o longa extremamente expressivo e envolvente. Em momentos, palavras nem são ditas. O puro primor visual fala por sí só, com imagens tremendamente belas, como uma que resgata com extrema sutileza as consequências da guerra e da violência. Nesse sentido, é obrigatório informar o quanto o filme retrata uma realidade acima de tudo pessimista. Ao lado de tantos outros filmes lançados este ano que focam esta nossa realidade assombrosa e voltada sempre para um lado triste, vide Onde os Fracos Não Têm Vez e os recentes lançamentos direto em DVD, Valente e principalmente Medo da Verdade, é um filme que retrata grande parte da vida de Marjane como um lamento, mas sempre oferecendo equilibrio excepcional, quando o humor inspiradíssimo e muitas vezes negro entra em tela. Com certeza os momentos mais genuínos e divertidos são frutos desses momentos onde a criatividade reina, e a produção revela o oposto do que ela tanto germina na mente da audiência: luz.

Em um filme obscuro, cuja estética em preto e branco oferece uma mensagem de um mundo muitas vezes sem vida e alegria, os cineastas conseguem a todo momento enviar sequências mais contundentes e cujo valor sentimental acabam vencendo a audiência. Refletido magníficamente no momento onde, em um ato de rebeldia de Marjane, começa a tocar “Eye of the Tiger”. E o filme oscila entre cenas emocionalmente pesadas e outras descompromissadamente bem humorados, construindo, com isso, um cotidiano realista e objetivo para Marjane, cuja infância era uma constante luta entre anjos e demônios. Automáticamente é estabelecido, portanto, uma querida conexão entre personagem e audiência, onde não só podemos nos identificar com Marjane e seus sentimentos de rebeldia e tristeza, mas ficamos facilmente comovidos e instigados por ela, deixados a reflexão diante das imagens mostradas, as palavras ditas e o ar sempre melancólico.

Persépolis pode ser compreendido, então, como um filme de personagem. Um estúdo de época, um exercício de visual e estilo, uma reflexão sobre nosso mundo pessmista, entre outras visões e interpretações que cada um pode tirar durante a sessão. O fato é que é um belo filme, cujos personagens densos oferecem fascinação e o valor artístico sobressai muitos filmes live-action lançados hoje. A estética é belíssima, e por conseguir, com maestria e dignidade, fazer uma junção mais que satisfatória entre seu estilo vibrante e sua narrativa conquistadora, se revela como uma das definições concretas de Arte. Seu valor, sua influência e seu poder sobre as pessoas e sobre sentimentos, deslumbrando não somente aos olhos. Por isso é difícil segurar as lagrimas ao término da sessão, ao contemplar Marjane, já adulta, tentando se segurar em memórias e nas pequenas coisas belas que a vida pode oferecer, que oferecem, no fim de tudo, uma luz especial depois do túnel obscuro. Parafraseando um diálogo do filme, “O medo coloca as nossas mentes para dormir”. Precisamos aprender a colocar esse medo de lado, como Marjane fez, e aprender a nos apoiar no que importa, abrindo nos olhos um pouco mais.

Persepolis (2007)
Direção:
Vincent Paronnaud & Marjana Satrapi
Roteiro: Vincent Paronnaud & Marjana Satrapi, baseado em seu livro e HQ
Elenco: Chiara Mastroianni, Catherine Denevue, Danielle Darrieux, Simon Abkarian, Gabrielle Lopes e François Jerosme
[Animação, 95 minutos]

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Responses

  1. Ninguém, mas ninguém tira da minha cabeça que o Oscar de Persepolis foi roubado … Uma poesia viva foi trocada por um filmeco … é dose … Só a sequencia de Eye Of The Tiger demonstava o filme do rato …

    depois daquela noite, me decepcionei profundamente com o Oscar mas que depois me deu um sorriso por ter dado o Oscar a Javier Barden e a Onde Os Fracos Não tem Vez … por que se não … mandava o careca dourado lá pra casa do chapeu …

  2. Eu amei esse filme. Foi com certeza, a melhor surpresa até agora, gargalhei e chorei na sessão.

    Antes eu achava que Ratatouille merecia ganhar o Oscar, mas depois de ver Persépolis eu vejo como estava enganado…

  3. Que pena que qdo baixei esse filme por aqui o link quebrou… deu erro no meu arquivo qdo tentei de novo, enfim… dei azar, já que o filme não veio pra cá nos cinemas, já esperava por isso…
    vou torcer para que chegue logo nas locadoras aqui da minha redondeza… mutios falam mesmo que esse era para ser o vencedor do oscar de animação no lugar do Ratatouille..
    abraços, Wally!

  4. Não pude ver – mais um que não estreou nos cinemas de minha cidade. Gostei de sua cotação, aliás, os amigos blogueiros recepcionaram muito bem “Persepolis”.
    Wally, boa viagem, e até mais!
    Abraço!

  5. Uma pena que o filme não tenha conseguido uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, porque acho que tinha grandes chances de sair com a estatueta.

    Só li coisas positivas sobre “Persépolis” e quero muito assistir ao filme.

    Parabéns pelo texto, Wally, que ficou simplesmente maravilhoso!

    Se divirta em BH e assista a ótimos filmes para comentar aqui depois! :-)

  6. Grande animação, sem dúvida a melhor supresa do ano até o momento. Além do roteiro ser acima da média para filmes do gênero, também adorei a técnica, encanta por não recorrer a estilo digital. Abraço!

  7. Quero muito ver esse filme, muito mesmo…

    Abraço e boa viagem!

  8. Estou ansioso para ver essa animação.
    Ainda bem que está prestes a sair em DVD.
    Ótima resenha!
    Abraço!

  9. Tão bom assim, Wally? Quero ver… Gostei muito do seu texto. Você analisou muito bem a forma e o conteúdo de PERSEPOLIS.

    Abs!

  10. Não gosto de animações, fora do estilo Disney/Pixar de desenhos e coisas fofinhas. Mas como o tema dessa é forte e interessante admito que tenho certo interesse, mas ainda me faltou oportunidade para assistir.

    Boa Viagem!

  11. Nossa quanto tempo eu nao passava por aqui!

    Ah nao gostei muito desse ae naO!
    tem uns reviews mais a baixo que vou voltar dpois pra ler. Uns filmes legais que tao no cinema!!!

    Passa la?

  12. Tenho certeza que vou ficar fascinado pela obra…
    Texto muito bom o seu!

    Assista O Escafândro e a Borboleta, outro que merecia um furor maior!
    Abraço!

  13. A cada nova opiniao que leio sobre “Persepolis”, aumenta a minha vontade em ve-lo. Adoro filmes que abordam temas serios e pesados de maneira inteligente e sutil, e esse, sobre um ponto de vista unico, de uma personagem, parece bem interessante.

  14. […] como os recentes “Renaissance“, “A Lenda de Beowulf” e “Persépolis“. A nova empreitada do gênero, “Coraline e o Mundo Secreto” equilibra-se entre […]


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