Publicado por: Wally | Domingo, Março 23, 2008

Coisas que Perdemos pelo Caminho

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Sob o fogo de perdas e ganhos

Audrey e Brian Burke levam uma vida feliz ao lados dos filhos, em casamento estável, mas a morte repentina do marido vira o mundo de Audrey de cabeça para baixo, a levando a confrontar o melhor amigo que Brian deixou para trás, Jerry. Ao chamá-lo para viver com sua família, Jerry começa a tomar as rédeas de sua vida decadente, e Aubrey tenta recomeçar a sua.

O cinema de Susanne Bier é melodrama. Depois do bom Brothers e do ótimo Depois do Casamento, a diretora sensível encara mais uma vez uma história de perdas. De pecado e do perdão. A forma como dirige, muitas vezes realista até, tende a cair para o melodrama. Felizmente, Bier sabe orquestrá-lo para que não se torne muito exagerado ou até mesmo incômodo. Mas ao contrário do que vez em seu trabalho anterior, Depois do Casamento, Bier perde um pouco o foco neste seu novo filme, que marca sua estréia no cinema de Hollywood. Coisas que Perdemos pelo Caminho é um belo filme, de personagens fortes e muitas vezes comovente, mas é visível o desleixo de momentos, principalmente da direção. Ou até mesmo do roteiro, que deixa o filme se arrastar um pouco, além de que, incompleto, não convence muitas vezes.

Mas o filme funciona. Não gostei de muita coisa. Como, por exemplo, os cortes abruptos e mal feitos, em uma tentativa fracassada de alcançar um estilo mais original e vibrante. Além disso, a trilha sonora do filme, entre outros aspectos da estética, me remeteu demais à 21 Gramas. Me via pensando constantemente no filme de Iñarrítu, que ainda contava com Benicio Del Toro, e isso com certeza não é algo bom. O forte do filme está, por tanto, nos personagens, na sensibilidade com o qual é dirigido e claro, nas atuações, excelentes. Dentre alguns momentos inpirados, podemos facilmente nos identificar com os personagens e nos comover ao lado deles, sentir por eles. Bier felizmente consegue isso. Pena que ela deixa essa sua habilidade de lado algumas vezes para se concentrar em outro drama, no ocorre em volta dos personagens ao invés do que por dentro deles. E por isso, para cada momento inspirado, existe um irregular.

Seria ignorânia da minha parte, porém, não identificar a melhor coisa deste filme. E esse elemento tem que ser Benicio Del Toro. Em uma de suas mais esmagadoras e profundas performances, ele arrebenta e demonstra o quanto é um ator soberbo. Uma pena ter sido esquecido nas premiações. Ele consegue, por tanto, deixar Halle Berry bem apagadinha. Berry faz bem, consegue trazer essência a personagem, mas falta intensidade. E por isso, Del Toro rouba todos os momentos divididos entre eles – muitos. Mas formam um par ótimo. Deixam alguns momentos inicialmente secos demais reluzentes e chamativos. Bier parece ter outro estilo inconfundível também, além do melodrama, dos olhares. Todos os seus filmes – pelo menos os que vi – ela constantemente foca nos olhares de seus personagens. E eu adoro isso. Traz honestidade e crueza à história. E isto muitas vezes acontece aqui. Enriquece o resultado final, que por um lado, é bem falho.

O filme te vence pela mensagem, carregada pelos sentimentos de seus personagens queridos e oprimidos. O que aconteceu no filme foi uma dosagem além do esperado de melodrama, o que acabou incomodando, mas na sua natureza, um belo e virtuoso filme. Além de focar a vulnerabilidade do ser humano e seu constante desejo de ser reconhecido, refletindo seu medo de isolamento, o filme não só retrata o quanto podemos perder com tragédias, o quanto o fogo destas pode apagar na nossa vida, mas também fala sobre o que ganhamos. Sobre as coisas que podemos ganhar ao perder. Virtudes, moralidade, visões e conciência. Apesar de muitas vezes previsível, o filme funciona. O desfecho então, que contava com alguns clichés básicos, funcionou maravilhosamente. Talvez pela sensibilidade, pelos personagens ou pela energia do elenco, mas sei que este é um belo filme. Falho, mas com algo a dizer, e consegue dizer isso de uma forma poética que emociona. No fim das contas, o filme perde e ganha, e o espectador também.

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[Things We Lost in the Fire, 2007]
Diretor:
Susanne Bier
Roteirista: Allan Loeb
Elenco: Halle Berry Benicio Del Toro David Duchovny Alexis Llewellyn Micah Berry John Carroll Llynch Alison Lohman
[Drama, 118 minutos]

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Responses

  1. tinha me interessado primeiramente pelo filme, por causa do título, achei um título bem impactante… obvio que grandes titulos, grandes responsabilidades…
    acho Benicio Del Toro um ótimo ator e Halle Berry totalmente sem sal… pelo que li, o cara apaga as atuações da Halle, tbm fraca ela é, imagina ao lado de um grande ator…
    espeor não me arrepender, pois espero do filme um dramalhão, mas nada de ser pegajoso e meloso como muitos…
    abraços

  2. Estou morrendo de vontade de ver esse filme, até pq todos dizem mesmo q o Del Toro tá um negócio espetacular – a melhor atuação da carreira q ninguém viu. Vou alugar essa semana.

  3. Gostei do filme e até achei interessante a diretora Bier continuar com o mesmo estilo de seus trabalhos anteriores. Entretanto, parece ser uma trama que pouco tem a dizer, sustentada pelas belas performances de seu elenco. Apesar de nunca ser clichê ou piegas, não consegui me encantar pela história da forma que deveria.

    Abraço!

  4. Não conheço o trabalho da diretora Susanne Bier, mas quero muito assistir “Coisas que Perdemos Pelo Caminho” porque a temática do filme me interessa bastante. Já foi lançado em DVD?

    Feliz Páscoa!

  5. Eu sou do tipo que adora dramalhões, quando não caem no ridículo, pelo menos. De Sussanne Brier, nunca vi nenhum filme, e espero que este seja o primeiro. “Coisas Que Perdemos Pelo Caminho” está prestes a sair em dvd, se não me engano. Sobre Benicio del Toro, concordo plenamente. É um dos atores mais talentosos que não surgiram em Hollywood. E se o filme lhe remeteu ao estilo de “21 Gramas”, talvez goste. A única coisa que me judiou naquele filme foi a edição amalucada e a direção horrível, com uma câmera vertiginosa.
    Abraço!

  6. Faço minhas as palavras do Vinícius.

    Um filme “discreto”, sem muito a dizer… Os dois estão bom…

    Não me marcou em nada =/

  7. Estou com esse filme aqui para assistir, me animei muito pelo elenco, mas pouco pelo trailer. Quero ver no que dá :)

  8. Uhn… Halle Berry virou sinônimo de produções ruins pra mim, por mais que isso seja preconceituoso da minha parte. Qualquer dia vão bater na porta dela e arrancar o Oscar dela a força.

  9. Rodrigo, é um melodrama. Mas é um bom, e o elenco ta muito bem. Vale a pena.

    Anderson, o filme não é grande coisa, mas Del Toro ta sensacional!

    Vinicius, também vi muitos problemas, mas até que consegui ser encantado.

    Kamila, ainda não. Vi nos cinemas mesmo. Mas procure ver quando chegar.

    Weiner, adoro 21 Gramas, e esse de Bier é bom, vale a pena. Espero que goste.

    Marco, sabe que também não me marcou? Mas no momento me comoveu.

    Isabela, é um bom filme. Veja sim.

    Daniell, verdade que ela só anda fazendo coisa ruim. Mas esse bom. E adorei a piada, rsrsrsrs.

    Ciao!

  10. Wally, comentei aqui sem saber que o filme tinha estreado nesta semana aqui em Natal. Assim que eu assistir posto outro comentário. :-)

  11. amei o filme,Benicio Del Toro é o máximo,adoro esse cara,e nem preciso dizer que ele salvou o filme,tudo o que ele faz é ótimo.


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