Publicado por: Wally | Sexta-feira, Março 7, 2008

Ventos da Liberdade

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Irmandade da guerra

Em uma Irlanda do século XX, dois irmãos republicanos lideram rebeliões contra a invasão britânica, que feriu não só seus valores, mas arruinou suas famílias.

O importantismo e a honestidade de Ventos da Liberdade são elementos chaves para fazer o filme funcionar e com isso, te vencer completamente. Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. Contando uma história comovente e honesta, me mostrando elementos de um conflito do qual eu conhecia superficialmente, e retratando uma guerra de idéias sempre focando o lado humano e com isso, o psicológico, se sai maravilhosamente bem como um estudo histórico e um estudo humano sensacional, comovendo com sua grande carga emocional e se revelando, a todo momento, preciso e fascinante.

wind.jpgÉ inegável que os grandes valores do filme não estão só no fato de tratar com dignidade e relevância os conflitos entre os irlandeses e os britânicos. Apesar de realizar isso espetácularmente bem, o que move o filme, e que faz com que suas duas horas de duração satisfazem é justamente o elemento humano, ao ótimo roteiro entregar uma atenção especial e merecida aos personagens, a força maior de toda a história. Por isso, ao vermos os britânicos torturarem e matarem inocentes, somos não só chocados, mas por conhece-los e por simpatizar com eles, acabamos emocionalmente abalados. É essa a conexão valiosa estabelecida brilhantemente entre a audiência e os personagens. Ou seja, o envolvimento é fácil, principalmente na questão política. Nós nos interessamos de verdade.

O personagem de Damien, que ainda conta com um desempenho honrável e intenso de Cillian Murphy, se torna o triunfo. Ele e sua relação fraterna com Teddy, irmão que mais envolveu Damien no conflito. É a triste angústia de Damien que toca bem fundo, muito bem trabalhada. Um homem que se vê partido entre permanecer imparcial em relação à guerra, se tornando desrespeitado e de conciência pesada, ou entrar no conflito, ao lado do irmão, e sofrer as duras consequências. Um diálogo resume muito bem isso: “Eu tentei não entrar nessa guerra, e entrei, agora tento sair, e não consigo.”. Mas o mais angustiante é testemunhar o destino de ambos irmãos, e o que a guerra fará deles, com eles. É sem dúvida o ponto alto do filme, desafiar essa fraternidade e mostrar como algumas pessoas se prendem demais à crenças e se envolvem demais com sí mesmas. O sacrifício se torna um elemento sempre presente na história, quando fica claro que os personagens, nunca seres unidimensionais, precisam fazer escolhas tremendamente polêmicas.

Também achei bem corajoso a postura do filme em relação a, por exemplo, a igreja. Sem exageros ou sensacionalismo, contesta a postura abominável da igreja católica em relação ao conflito, momento onde, previsivelmente, ficaram do lado dos ricos. Poderoso e realmente fascinante em seus estudos, o filme é um grande e belo triunfo. Claro que poderia ter sido melhor, afinal, é uma obra que, infelizmente, se perde em alguns momentos da longa narrativa, mas sempre compensa, e seus grandes valores são incontestáveis. Além daqueles que já listei, ainda conta com um soberbo elenco, uma belíssima fotografia e para completar, uma ótima trilha. Mas roteiro e direção nunca ficam devendo à parte técnica, na verdade, se superando nesse sentido. Não só sobre controversos conflitos de ideais, respeito e política, sobre sacrifício e irmandade, o filme é, acima de tudo, um questionamente. Como Crash – No Limite, nos desafia ao nos questionar se realmente, verdadeiramente, nos compreendemos. Por isso, um dos vários geniais diálogos de Damien soa tão ácido e precioso: “Criaturas estranhas nós somos, até para nós mesmos.”. Ótimo cinema, para ficar na memória e ser discutido. A verdade é que, não existe simplicidade na guerra.

[The Wind That Shakes the Barley, 2006] Dirigido por Ken Loach. Escrito por Paul Laverty. Com Cillian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham, Orla Fitzgerald e Mary O’Riordan. [Drama, 127 minutos]

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Responses

  1. Oi, tdo bem? vlw pelo coment! Então FNL é muito bom mesmo, mais eu sou bem atrasado na serie, ainda nem terminei a 1ª temp. meu parceiro que está em dia com a serie e responsável pelos coments!

    Nossa eu nunca tinha ouvido falar sobre esse filme, mais eu não gosto mesmo de filmes desse generO!

    Até mais ae;. bom fds!

  2. Vi esse filme no ano passado e gostei. Acho que poderia ter sido melhor, mas é um bom filme. E o Cillian Murphy está ótimo.

    Abs!

  3. Wally, só ouvi falar coisas boas sobre esse filme até agora. Seu texto está maravilhoso e, com certeza, me deixa ainda com mais vontade de assistir “Ventos da Liberdade”.

  4. Ganhar a Palma de Ouro em Cannes foi um reconhecimento e tanto para o filme, despertou em mim vontade ainda maior de conferí-lo. Vou alugar o mais depressa possível. Você gostou, e destacou ainda que Murphy têm uma boa atuação. Wally, eu nunca vi este ator trabalhar mal, de verdade.
    Abraço!

  5. Engraçado que mesmo tendo ganho em Cannes, eu não tenho a menor vontade de ver esse filme. Ele simplesmente não me atrai em nada… Acho que mesmo assim devo conferi-lo pra saber se ele é tão bom assim como dizem.

  6. Um filme com aspectos técnicos marcantes, além da ótima atuação do sempre competente Cillian Murphy (além da revelação Orla Fitzgerald). Ainda assim considero um pouco superestimado, não apreciei tanto quanto você – e nem de longe acho um filme digno de vencer a Palma de Ouro. Abraço!

  7. Lucas, tentarei ver FNL sim, e veja esse filme é ótimo.

    Otavio, concordo, gostei bastante, mas poderia ter melhorado em certos aspectos. De qualquer forma, me agradou muito. E quando é que Cillian Murphy não está ótimo??

    Kamila, é um ótimo filme, merece ser visto mesmo, e muito obrigado. ;)

    Weiner, acho um ótimo filme, mas não digno de vencer a Palma do Ouro. Acho que recebeu mesmo por tratar do tema com tanta honestidade e relevancia, de forma respeitosa e honrável. E como disse ao Otavio acima, Murphy SEMPRE está ótimo.

    Marco, apesar de eu achar que não tenha merecida a Palma de Ouro em Cannes, recomendo, pois acho ótimo filme

    Vinicius, concordo, não acho que deveria ter vencida a Palma, mas adorei o filme. Só acho que se perde um pounco no caminho, mas compensa sempre com valores maravilhosos.

    Ciao!


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