Publicado por: Wally | Domingo, Março 2, 2008

No Vale das Sombras

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Ilusão de patriotismo

Hank Deerfield, um veterano da polícia, e sua esposa recebem a notícia de que seu filho não está mais no Iraque. A partir disso, começam a trabalhar com a detetive Emily Sanders para descobrir o paradeiro e o porque do seu filho estar sumido. No meio do caminho, são obrigados a enfrentar amargas verdades.

O simbolismo com o qual No Vale das Sombras termina é único. Depois de uma luta à procura da verdade, Hank, que era sempre um homem patriótico e pendurava sempre a bandeira de seu país, decide, depois de uma jornada torturosa, que perdeu toda sua fé e suas crenças no país. Com a bandeira do seu filho, ele a pendura de cabeça para baixo. A transformação de Hank é triste, e reflete muito a perda de valores que o país vem sofrendo desde o início da fútil Guerra do Iraque. Tommy Lee Jones, em uma honestamente e emocionalmente devastadora performance, é Hank, que começa o longa lamentando, contidamente, a perda de seu filho, e termina o filme com um tremendo e triste ato de anti-patriotismo. Imagino o quanto de pais devem estar se sentindo como Hank agora, nos Estados Unidos, após perderem seus filhos. A guerra de Bush cria uma ilusão de patriotismo, como todas as outras, fazem as pessoas acreditar que, lutando por ela, estarão lutando por seu país. Mas é sofrível constatar que, o que uma vez era o ponto mais forte da nação gananciosa dos Estados Unidos, é agora sua princípal fraqueza. As pessoas começam a desacreditar nessa tal ilusão e começam, aos poucos, enxergar a verdade.

elah.jpgO filme do corajoso Paul Haggis veio para mostrar isso. Duramente críticado por muitos, acho que a maioria não se identificou claramente com o que Haggis queria contar. Apesar dos problemas da direção (uma decaída brusca do que fez em Crash – No Limite), o roteiro de Haggis é cheio de coisas boas, personagens fortes e uma investigação que, apesar de falhar em instigar a audiencia em momentos, se revele extremamente significante. Mas acima de tudo, eu acredito que o filme seja, na verdade, um ode. Um lamento aos soldados e uma homenagem àqueles que tão duramente se sacrificaram “por um bem maior”. É um filme que investiga claramente os horrores da guerra e suas consequencias sobre pessoas ainda não preparadas para lidar com tamanha maturidade. Haggis sabe o que está fazendo, e seu filme é esse grande e triste lamento, que toca bem fundo e te deixa com um sentimento tremendo de angústia e tristeza.

Tal sentimento ganha contornos maiores com a personagem de Joan Deerfield – mãe do soldado e esposa de Hank – e consequentemente o desempenho arrasador de Susan Sarandon, que, se tivesse um pouco mais de tempo em tela, com certeza teria sido mais lembrada e exaltada. Mas o que ela fez, em tão pouco tempo, é de cortar o coração. Ao lado de Lee Jones, Sarandon é expert em falar mil coisas com os olhares, e em certa cena, me desmontou completamente com um desses. Já Lee Jones demonstra um sólido trabalho, nunca exagerando ou definhando, ele lidera o filme e marca com seu personagem, faz um trabalho virtuoso. Ao lado deles, Theron fica muitas vezes apagada, mas ainda assim consegue empolgar com seu desempenho mais uma vez extremamente competente. Eles deixam o filme soando mais autentico.

O título original do filme “In the Valle of Elah” é tirado da Bíblia, e se caracteriza pelo vale onde Davi venceu de Golias. A explicação do título no filme foi, odeio dizer, um pouco superficial. Não funcionou da forma como deveria, o que é uma pena, já que se revela extremamente significativo e uma metáfora perfeita para os jovens soldados que embarcam para esse vale sombrio para enfrentar males maiores que eles. Poucos, porém, acabam como Davi. Apesar de faltar um pouco mais de autenticidade em momentos, o filme de Haggis é um triunfo. Além de urgente e memorável, é um longa importante que nos envolve em seu intuito de desmascarar uma nação perdida e investigar as vidas amargas que nela se habitam. Um triste filme, mas realmente, infelizmente, necessário.

[In the Valley of Elah, 2007] Dirigido e roterizado por Paul Haggis, estória também de Mark Boal. Com Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Jason Patric, Susan Sarandon, James Franco e Josh Brolin. [Drama, 121 minutos]

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Responses

  1. Wally, eu gosto muito do Paul Haggis e pensava que esse filme ia ser melhor recebido pela crítica e público.

    Seu texto me dá um ânimo a mais para assistir a este filme!

    Bom domingo!

  2. Ae, wally, tudo certo?
    Cara, esse filme possui um ótimo elenco… pelo jeito Tommy Lee Jones mostra pra que veio nele.. não assiti nem esse e nem o outro dos irmaõs coen…espeor conferi-los em breve…
    Texto excelente, principalmente por destacar a audacia do diretor em discutir os verdadeiros motivos de uma guerra ‘falsa’ atraves dessa crítica imposta no filme…
    abraços

  3. É um filme que possui mesmo sua força e simbolismo particulares, onde Paul Haggis consegue evoluir dentro de seu papel de diretor, transformando o bom argumento em cenas emocionantes. Mas a história se perde um pouco com o decorrer do filme, e a maioria do elenco, então, não ajuda em nada. Detestei o trabalho de Charlize e Franco e Patric. Adorei Saradon, somente ela se salvou. Mas o destaque vai sem dúvida para Tommy Lee, que em momento nenhum me convenceu na pele de um pai em busca da verdade (indicação fajuta ao oscar 2008).
    É um filme a ser assistido, concordo, muitos vão gostar de sua temática, mas jamais o chamaria de memorável. “Crash”, por exemplo, foi melhor (este sim, memorável, apesar de algumas falhas de roteiro).
    Abraço!
    Nota: 7,5 (***)

  4. Achei o melhor trabalho do Haggis como diretor, mas mesmo assim é apenas bom, ao contrário de Crash, que achei ruim.
    A cena final é ótima, se analisarmos só ela, sem o filme junto, mas quando você pega o filme inteiro você percebe o quão clichê ela se torna, o que nem sempre é um problema, pois adoros clichês, quando bem utilizados.
    O maior destaque para mim é Susan Sarandon que, como você disse, só com os olhares conseguiu passar sua dor.
    Nota: 6,5

  5. Gostei desse filme, da maneira como é conduzido e tudo mais. Tommy Lee faz por merecer sua indicação. Mas, ás vezes me dava um sono…

    Enfim, é um bom filme que vez o que se propôs.

    Abraço!!!

  6. Bem, você já sabe minha opinião a respeito desse filme. No início pensei que seria ótimo, afinal a trama era muito interessante, mas como sempre o Paul Haggis estragou tudo com seu sentimentalismo barato e o resultado foi medíocre. Pobre elenco, tão desperdiçado…

  7. Gostei moderadamente desse filme. Gostei mais do elenco (adorei o que você disse sobre o desempenho da minha querida Susan Sarandon) do que do filme em si. Um bom trabalho, sem dúvida alguma. Só achei que faltou um pouco mais de impacto.

  8. Ainda não vi, mas falam bem das atuações da Susan Sarandon e Tomy Lee Jones. É do Paul Haggis (amei Crash), logo não devo demorar muito para assistir…

  9. É um belo filme, não? Nenhuma obra-prima, mas é um drama competente e direto. Tommy Lee Jones está fantástico e adorei ver seu nome entre os indicados ao Oscar. Fiz campanha pra ele como MELHOR ATOR desde que vi o filme em outubro de 2007.

    Ah! Li sua crítica de DEPOIS DE HORAS e deixei um comentário.

    Abs!

  10. Kamila, eu também esperava melhor recebimento, e apesar de bem inferior á Crash, achei um belo filme.

    Rodrigo, obrigado, e procure ver o filme. Espero que goste.

    Weiner, permita me discordar quanto ao elenco e ao fato do filme ser memorável, já que permaneceu na minha mente e ainda permanece. Achei Tommy Lee Jones soberbo no papel, muito bom mesmo, não sei porque não gostou. Theron me satisfez também. Mas claro, Sarandon é o triunfo. E eu acho o contrário. Gostei mais do roteiro do que da direção, mas de qualquer forma, ambos sentidos apresentarem uma decaida em relação a Crash.

    Lucas, Sarandon tá ótima mesmo. E eu adoro Crash, gostei bastante desse também.

    Pedro, a narrativa é lenta mesmo, mas me segurou, bastante alias. Ótimo filme.

    Vinicius, já sei sim, rsrs, e não tem jeito. Quando o assunto é Haggis, discordamos. Acho um baita filme.

    Matheus, também senti falta do impacto, como em Crash, mas é um filme mais calmo e construtivo. Sarandon foi o triunfo.

    Marco, bom saber de outra pessoa que ama Crash, sou fã do filme. Veja sim, espero que goste.

    Otavio, belo mesmo, e concordo, longe de obra-prima, mas fiquei comovido pelo longa, além de concordar sobre o desempenho honrável de Jones, pena que algumas pessoas não percebem. Fiquei feliz com sua nomeação ao Oscar. Vi a crítica e obrigado. É um filme de várias interpretações mesmo. Em breve escreverei sobre De Olhos Bem Fechados.

    Ciao!

  11. Adorei Crash! e com ceteza vou gostar de “No vale das Sombeas”, pois sou fã de Tommy Lee e Saradon. Valeu pelas dicas.

  12. […] pelos vilões. É mais um elemento humano muito bem empregado pelo hábil roteiro de Paul Haggis (No Vale das Sombras) e companhia, que ainda coloca em pauta uma questão socio-ambiental bastante interessante que nos […]

  13. […] Piper Laurie (Um Funeral Muito Muito Louco), Giovanni Ribisi (A Estranha Perfeita), James Franco (No Vale das Sombras), Kerry Washington (O Último Rei da Escócia) e Josh Brolin (Onde os Fracos Não Têm Vez). Eles […]

  14. […] já havia escrito uma história sobre temores psicológicos sofridos por soldados no belo “No Vale das Sombras” (que por sua vez foi roteirizado por Paul Haggis) constrói bem seus personagens e versa de […]

  15. […] caracterização – um contido mas poderoso Josh Brolin (A Garota Morta), e um James Franco (No Vale das Sombras) totalmente natural no desempenho intimista. Apenas alguns dos nomes que fazem da experiência de […]


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