Publicado por: Wally | Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Onde os Fracos Não Têm Vez

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Um jogo de vida ou morte

Llewelyn Moss tem seu dia de sorte quando se depara com uma cena sanguinária e generosa: corpos baleados e uma maleta cheia de dinheiro. Llewelyn decide ficar com o dinheiro, e o leva para casa. Mas logo sua conciência pesa quando lembra do homem que deixou na cena machucado mas ainda vivo. É quando se depara com o assassino Anton Chigurh, cuja tarefa é resgatar o dinheiro e acaba matando todos que passam por seu caminho. Ed Tom Bell é o policial que está à procura de Chigurh.

Onde os Fracos Não Têm Vez começa e termina com um lamento, narrado por Tommy Lee Jones, ótimo no personagem de Ed Tom Bell. Bell é, de certa forma, a alma do filme. É o espectador e junto com a audiência, se torna a principal testemunha dos fatos ocorridos. É o pedaço filosófico do filme, o observador, o essêncial. Bell começa o filme contando sobre uma experiência envolvendo um assassino de 14 anos de idade, e como ele mudou um pouco a percepção de Bell para a vida. Bell lamenta sobre um tempo perdido de valores e caráteres que não existe mais, substituído por uma sociedade presidida pelo mal. Você só entende essa percepção de Bell completamente, porém, só quando o filme termina, mais uma vez sobre a voz de Bell, como um lamento, no que deve ser o melhor diálogo do todo o filme.

country.jpgO filme é uma brilhante metáfora e um conto assombroso sobre perda de valores e um mundo cada vez mais cínico e pessimista, com certeza não exatamente o típo de longa que deve ser procurado para divertimento. Seu efeito é deprimente e você sai da sessão revoltado e angustiado, refletindo muito bem como o personagem de Ed Tom Bell deve se sentir no meio daquilo tudo. Se Bell é o observador, o personagem de Llewelyn Moss representa o típico homem à procura da felicidade. Ao achar uma maleta com dinheiro, Moss só pensa em ficar com ela e comprar um futuro para ele e sua mulher. Mas como qualquer pessoa boa, ele não aceita o fato de ter deixado um homem indefeso morrendo na cena do crime, e ao voltar para remediar esse seu tropeço, se depara com o verdadeiro mal, que irá persegui-lo por um bom tempo. Esse mal é representado por Anton Chigurh, um assassino calculado que mata à sangue frio, apostando a vida de suas vítimas em um jogo de cara ou coroa. Anton representa, acima de tudo, o pessímismo da sociedade. A crueldade sempre presente e o fator assombroso que tememos tanto ao sair de casa ou andar nas ruas de noite.

Os personagens do filme dos Coen são o destaque. Poucas vezes vemos personagens tão bem tratados e conduzidos, com diálogos tão eficientes e memoráveis, envolvidos em situações tão marcantes. Os méritos aqui são do roteiro e, claro, da obra original na qual se baseia. É um forte conto. Triste, mas necessário, e os Coen dirigiram a obra com a mesma intensidade e brutalidade (talvez ainda mais) com que escreveram o roteiro. Dentre os momentos mais emblemáticos do filme, preciso destacar a cena onde Anton aborda um simples caixa e aposta a vida dele em uma moeda. É uma cena de diálogos incríveis. Mas outra cena não possui diálogo algum. Se passa durante a caçada de Chigurh à Moss, em um momento de edição impecável e completa ausência de trilha. É tenso e arrebatador, ao seguirmos apenas os olhares e expressões de seus personagens. Destaque aqui merece ir aos atores. Não só a já consagrada performance incrível de Javier Bardem, fazendo uma personificação do mal surpreendente e assombrosa, mas também de Josh Brolin, no que deve ser sua melhor performance, criando um personagem pelo qual a audiência consegue facilmente se simpatizar. Além dos três valiosos atores (Jones, Bardem e Brolin) ainda temos atuações iqualmente ótimas e inesperadas de Woody Harrelson, Garret Dillahnt e principalmente Kelly MacDonald, excelente.

Elogios ainda merecem ir à fotografia. O mundo criado pelos Coen é árido, retratando uma época de faroeste perdida (engana-se quem considera este filme um faroeste, pois com certeza não é) e a fotografia realça sombras e o escuro, se tornando com isso, perfeita. Em diversas tomadas, não vemos o personagem, mas sua sombra, e isso se torna bem influente nos momentos com Anton Chigurh, que na maioria das vezes aparece surgindo da escuridão, de uma sombra. A completa ausência de trilha foi uma escolha genial. Como já mencionei, existe um momento cuja tensão pode ser extraída justamente por essa falta de música. O momento realmente musical encontra-se nos créditos finais, e acreditem, a trilha é excelente e misteriosa. Ou seja, é um filme tecnicamente perfeito, com um elenco excelente e cujos valores no roteiro e na direção ultrapassam o esperado. Foi realmente uma gratíssima surpresa. Pessoalmente, fiquei sentindo um pouco vazio depois do diálogo final de Lee Jones, onde fala sobre um sonho que teve quando seu pai carregava fogo na escuridão e no frio, tentando iluminar o caminho dos dois. É uma metáfora como poucas e o diálogo ainda termina com ele dizendo: “E aí eu acordei”, e isso resume maravilhosamente o escapismo total que temos quando sonhamos, e a triste angústia de acordar e perceber ter voltado para a realidade. Por essas e por outras que considero este uma obra cinematográfica inesquecível e que não será facilmente esquecida pelo cinema e por seus adoradores.

[No Country for Old Men, 2007] Dirigido e roterizado por Joel & Ethan Coen, baseado no livro de Cormac McCarthy. Com Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, Kelly MacDonald e Garret Dillahunt. [Thriller, 122 minutos]

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Responses

  1. Wally, “Onde os Fracos Não Têm Vez” não me afetou tanto quanto a você, mas reconheço os méritos desse filme: as metáforas do roteiro (a questão da trama tratar desse mundo cínico e pessimista), as performances do elenco e a fotografia).

    E parabéns pelo belíssimo texto!

  2. Eu não tenho muitos problemas com o filme. Tirando o final que deve funcionar melhor no livro (os diretores não quiseram entender isso – certo eles, claro), é um belo trabalho de direção ajudado por alguns aspectos essenciais para seu sucesso – elenco e técnica, com destaque para a fotografia e som. E será complicado escolher quais dos coadjuvantes irei indicar na minha lista de melhores do próximo ano (sim, já estou pensando nisso). Fico na dúvida entre Tommy Lee Jones, Javier Bardem e Garret Dillahunt – Bardem é uma escolha óbvia (e já certa), mas os outros dois têm chance de aparecer.

    Abraço!

  3. Muito bom o seu texto. Esse é meu Coen(s) preferido, até mais que Fargo e Ajuste Final que são ótimos, ou até mais que isso.

  4. Primeira vez que venho ao blog, meu parabéns pelo belo trabalho!
    Tenho uma opinião muito parecida com a sua em relação ao filme, porém daria mais destaque a atuação impecável de Bardem.
    O roteiro e as metáfora as quais você comenta realmente são o ponto forte do filme.
    Parabéns pelo texto, muito bom!
    Abraço!

  5. Eu gostei muito do filme, principalmente pela maneira em que o roteiro dos Coen conseguiu trabalhar com a violência, a tensão, a adrenalina e por vezes a comédia. A direção dos irmãos também é um trunfo, bem como a fotografia de Deakins. Atuações ótimas de todo o elenco (Bardem, Lee Jones, brolin, McDonald, etc.) Só que às vezes me dá a impressão de que foi superestimado.
    Nota: 9,0
    Abraço!

  6. Esse filme é demais. Bardem é sobrenatural. Os Coen são genias. O que mais posso dizer?

    8,3

    Abraço!!!

  7. Belo texto. O filme realmente é excelente.

  8. Eu só acho que a idéia deste filme está no título original. E é um filme inteiro pra explicar isso. Vai do nada a lugar nenhum. A não ser para dizer o que está no título.

    Hoje, antes de vir para o trabalho, vi que estava começando BARTON FINK na TNT. A cena em que o John Turturro chega no hotel e o cara do elevador demora pra fechar a porta do elevador… esse humor… essa esquisitice… era algo único. Bom, eu gostava mais dos Coens daquela época. Que saudade…

    Abs!

  9. óTimo texto.. me deixou aindas mais ansioso para conferir esse filme… se bem que dependo da boa vontade do povo aqui do cienma, ehhehe.. acredita que aidna não chegou? e nem rola de baixar da net, pois meu pc tá uam lerdeza que só.. e tbm nada como ver na telona do cinema e com som decente… tomara que venha, se não so mesmo nas locadoras, afff… rs
    abraços

  10. Kamila, muito obrigado, e fico contente em ver que mesmo aqueles que não gostaram tanto reconheceram os valores do filme.

    Vinicius, não é o único pensando na próxima premiação. E esse filme terá grandes chances na minha, sem dúvida.

    Lucas, dos Coen que vi, também é meu preferido. E obrigado.

    Thiago, bem-vindo e muito obrigado. Temos opiniões semelhantes.

    Weiner, acho que sou dos poucos que não achou superestimado. Amei tudo no filme.

    Pedro, realmente não tem muito o que dizer, rsrsrs, brilhante filme!

    Ronald, obrigado. O filme é mesmo excelente. ;)

    Otavio, achei o título nacional ótimo porque para mim o filme não é só sobre um mundo sem lugar para os mais velhos, mas também um sem lugar para os mais fracos. Achei que o longa conseguiu fazer uma reflexão vibrante sobre nossa sociedade atual. Amei. Esse dos Coen não vi, alias. Fargo foi meu primeiro e esse meu segundo…Ou seja, conheço pouco deles.

    Rodrigo, obrigado, e veja assim que puder, vale muito a pena.

    Ciao!

  11. Me decepcionei com o filme, o filme nao me fez refletir nada e nao fiquei muito tenso em momento algum. Tem alguns bons dialogos, mas é tudo que eu vi.

  12. […] personagens igualmente interessantes, como a médica interpretada muito bem por Kelly Macdonald (Onde os Fracos Não Tem Vez) e, claro, com sua mãe, digna numa performance imperdível de Anjelica Huston (Ensinando a Viver). […]


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