Publicado por: Wally | Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008

A Ponte

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Poesia negra
 

Um documentário que investiga profundamente as pessoas que decidem tomar suas vidas na ponte de São Francisco, denominada ‘Golden Gate Bridge’. Capturando imagens reais dos suicidas e contando com depoimentos de familiares e amigos, tenta desvendar o porquê de ser o ponto decisivo para a vida de tantas pessoas.

A sessão de A Ponte é espantosa. O documentário comovente de Eric Steel (em seu primeiro longa) fascina pela visão que desenvolve a partir de trágicos incidentes envolvendo suicidas e como seus familiares e amigos respondem. Atingindo um nível extremamente belo e poético em momentos, impressiona pela decisão do diretor ao tentar descobrir o porquê do ponto ser tão marcante e sedutor para certas pessoas. A ponte de São Francisco se torna, com isso, a personagem principal, e tudo é desenvolvido a partir dela. Mas por mais instigante e belo que seja o filme também levanta muitas questões de moralidade e ética, não as discutindo, mas as violando.

bridge.jpgPrimeiramente, é de se espantar com as imagens reais de pessoas pulando livremente da ponte, após momentos de angústia. Poucas desistem, outras voltam e algumas ficam andando de um lado para o outro até decidirem acabar com tudo. Todos esses momentos foram registrados pelo diretor, a pouca distancia da ponte, enquanto os fatos ocorriam. Será que ele não poderia te-los prevenido? E ainda pior, foi oficializado que o cineasta capturou imagens e foi em busca dos familiares e amigos da vítima depois para arrancar deles depoimentos, mas nunca disse a eles que tinha imagens do suicida no ato do suicídio. Com isso, o filme se revela moralmente repreensível. O diretor sacrificou sua ética e sua moral para poder criar uma obra poética. Poesia negra, eu a chamaria. Suja, mas impossível de resistir, principalmente porquê Steel é um bom cineasta, sabe capturar momentos e envolve a audiencia como poucos documentários conseguem.

Ou seja, analisando por trás desses defeitos morais da fita, é sim um filme bem recomendável. O efeito é arrasador, realmente te toca e também deslumbra pelo modo que captura a magnitude da ponte. Suas sombras, sua grandiosiedade e seus efeitos nas pessoas, a tornando misteriosa e uma personagem perfeita. E tem os falecidos. Nós realmente acabamos por nos importar muito por eles, seus conflitos e consequentemente, suas decisões. Alguns ficam impossíveis de contestar a escolha de suicidar, como o caso de uma esquizofrênica sozinha e em constante sofrimento. E existem aqueles que poderiam ter feito mais , tido mais, e acabaram com suas vidas cedo demais.

Relativamente deprimente com a nota na qual termina, o longa é do típo que dificilmente sairá de sua cabeça e algumas imagens jamais serão esquecidas, como a última. O filme todo é uma construção até essa última cena de suicídio. Nós chegamos a nos importar tanto pelo suicida que quando chega sua hora fica difícil segurar a emoção. Pontos para o diretor, que demonstra ter sensibilidade. Infelizmente existem alguns momentos e depoimentos descartáveis, alguns até tolos e em nada adicionando ao resultado. Por esses motivos, e por sua violação moral, é que não recebe uma cotação mais alta e se torna um documentário realmente obrigatório. O fato é que emociona, assombra e permanece com você por muito tempo.

[The Bridge, 2006] Dirigido por Eric Steel [Documentário, 93 minutos]

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Responses

  1. Ae, wally… tinha visto uma reportagem desse filme em algum lugar, fui pesquisar e me interessei muito pelas historias… só que tá dificil de acha-lo…
    espero assisti-lo o quanto antes…
    abraços

  2. Puxa, sua crítica me deixou um pouco apreensivo a respeito de “A Ponte”. Eu já sabia da sinopse, mas não me ocorreu que Eric Steel tivesse usado deste tipo de artifício para criar o documentário. Bastante reprovável mesmo, sinistro até. Mas ainda vou ver, uma hora eu dou um jeito.
    Abraço!!!

  3. Wally. Em nenhum momento achei repreensível a atitude do diretor. Primeiro porque era humanamente impossível ele tentar alertar os suicidas (até porque ele não estava lá o tempo todo, o que dá para perceber através de algumas câmeras paradas), segundo que os depoimentos (ainda que os entrevistados não soubessem no real propósito do documentário) serviram como uma emocionante homenagem àquelas pessoas. Enfim, não acho um filme “forte”, na verdade acho até bem poético. Só concordo que um caso ou outro poderia ser deixado de lado por não acrescentar nada aos demais.

    Abraço!

  4. Tentei assistir esse filme uma vez mas voltei atrás, não tive muita coragem. Incrível como alguns filmes tem esse poder né? Não sei, acho que depois de ver você não pode mais voltar atrás, não dá para ‘desver’ o filme. E se eu perder alguma coisa quando terminar de ver? Se eu perder a inocência? E se ver uma pessoa se matando me fizer achar isso banal? Pode ser viagem, mas eu pensei nisso tudo. Tenho um pouco de medo de assistir.

  5. Não tive a chance de ver. Saiu em DVD? Abs!

  6. Parece um docu bem polêmico e original, fiquei curiosa.

  7. Wally, me lembro do texto do Vinícius sobre esse documentário e, desde que li o texto sobre o filme na Veja, fiquei mais do que curiosa para assistir a este documentário. Adorei o texto e espero que possa conferir “A Ponte” logo.

  8. Nem conhecia. Bom saber que é legal. Devo procurar agora para assistir.

    Abraço!!!

  9. Rodrigo, procure ver, é interessante e eficiente, além de belo.

    Weiner, apesar de reprovavel as medidas usadas pelo cineasta, o filme é belo e eficiente, vale a pena ser conferido, e merece também. Procure ver.

    Vinicius, eu tentei olhar por esse lado humanamente impossível e até concordo com seu ponto de vista, mas ainda acho estranho filmar uma pessoa morrendo e não fazer nada. Mas o que me irritou foi o fato de ele ter procurado as familias, arrancado depoimentos e não dito nada a elas. Fora isso, realmente belo e poético filme.

    Daniell, está certíssimo. A Ponte demorou a sair da minha cabeça. As imagens ficaram comigo e diria até que algumas histórias me assombraram. É um documentário eficiente mesmo. Quando estiver preparado veja.

    Otavio, ainda não. Vi em circuito alternativo. Quando chegar veja. ;)

    Romeika, realmente, bom e polemico. Veja sim.

    Kamila, confira assim que puder. É bom sim.

    Pedro, procure ver, é muito bonito.

    Ciao!


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