Publicado por: Wally | Terça-feira, Fevereiro 5, 2008

Desejo e Reparação

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   A arte de amar

Cecilia e Robbie, em meio à olhares, se apaixonam. Robbie, querendo declarar seu amor à Cecilia e desculpar por um erro, escreve uma carta. Briony, jovem aspirante à escritora de 13 anos le a carta e não a compreende. Em seguida, ve algo que iqualmente nao compreende. Sua incompreensao à leva a acreditar em algo terrível, e logo acusa Robbie de um crime que não cometeu. Esta acusação mudará a vida de todos os tres para sempre.

Não se ve a primeira metade de Desejo e Reparação como um filme qualquer. Desde que o filme começa, nós somos automáticamente mergulhados em uma profunda beleza. Seja o visual glorioso, que conta com uma magnífica fotografia e direção de arte, a edição impecável ou a trilha sonora impressionante de Dario Marionelli. É um sonho, é um delírio, é paraíso no cinema. Não se consegue resistir, não se pode tirar os olhos da tela e só resta apreciar e se apaixonar. E foi isso que eu fiz, me apaixonei por esse romance trágico perfeito, que não só se revela um dos melhores da década, mas cinema poderoso e surpreendente, que vai muito além de sua primeira metade tensa, envolvendo a audiencia em um sonho e entregando um final esmagador que te deixará de queixo caído e com o coração partido. Me digam, quantos filmes conseguem fazer isso hoje em dia?

atonement5.jpgMais para o ínicio do filme, o fantástico diretor Joe Wright nos introduz, com uma tremenda sutileza, seus personagens, em meio á uma já mencionada montagem perfeita. O roteiro escrito por Chtistopher Hampton é um luxo, conseguindo não só construir os personagens de uma forma estupenda, mas demonstrando, ao mesmo tempo, suas fraquezas, seus defeitos e claro, seus valores. Com 30 minutos de duração, já conhecemos todos, sabemos o que sentem, compreendemos seus desejos e suas aspirações. Tudo movido brilhantemente pela trilha gloriosa de Marianelli e um elenco extraordinário. James McAvoy, Keira Knightley e Saoirse Ronan brilham em tela. McAvoy, na melhor performance de sua carreira, demonstra intensos valores em uma soberba e contida performance, que te emociona na medida certa. Knightley não fica para trás, ela está maravilhosa como Cecilia, uma mulher com o coração partido e que anseia por um final feliz. Mas o destaque tem que ser a vibrante e inaqualável Ronan. Ela entrega um show de performance. Sua personagem é a melhor do filme, e nem mesmo quando é interpretada por mais duas outras atrizes ao longo do filme perde sua credibilidade. E isso tudo só na primeira metade, onde ainda presenciamos o que deve ser a cena de sexo mais sutil, forte e impressionante da história do cinema.

E com isso, o destino dos personagens, que nasce graças à incompreensão de uma garota ingenua e inocente de 13 anos, começa a ser moldado. E eu sinceramente não consigo dizer qual me emocionou mais. Temos a fragilidade e a esperança fraturada de Cecilia, que só quer ver seu amado   mais uma vez e senti-lo em sua pele, e do outro lado, Robbie, testemunhando os vários horrores da guerra e passando por ela com o sonho de poder voltar definitivamente para a mulher que tanto ama. Briony cresce, se desenvolve, matura e começa a entender a gravidade de seus atos. Romola Garai faz a Briony de 18 anos muito bem, mesmo que longe da maestria de Ronan. Ela consegue traduzir bem tudo que ela sente e tudo que ela deseja fazer. Seu desejo de reparação começa aqui, com 18 anos, vivendo os horrores da guerra como uma enfermeira. E os diálogos brilhantes e maravilhosos do roteiro nos enche de prazer. Tanto quanto a fotografia. Afinal de contas, é impossível ficar indiferente ao plano sequencia que Wright realiza. De quase 5 minutos, essa tomada única é sensacionalmente deslumbrante, e fotografada magníficamente. Wright nos coloca no lugar de Robbie e andamos pela praia que serviu de testemunha para os mais horrendos atos de guerra. Nós sentimos o sofrimento de Robbie e vemos a desgraça que a guerra causa. Só vendo para crer.

E depois de vermos as consequencias da guerra e testemunharmos o sofrido romance de Cecilia e Robbie, finalmente chegamos ao final inesperado e contundente. Vanessa Redgrave é a protagonista, em uma performance curta mas emocionate, e é a chave do filme. Ela é o elemento definitivo. Ela traz a tona os verdadeiros valores do filme, aqueles que vão além de beleza estética. É o momento mais fascinante e emocionalmente devastador do filme. E como diz o tagline do filme, voce nem imagina a verdade. E isso nos faz pensar um pouco sobre o que é cinema. Cinema é manipulação. Ao vermos um filme, de uma maneira ou outra, somos manipulados a acreditar em uma coisa. A diferença é que existem filmes que sabem e outros que não sabem, caindo no exagero. Em um filme extremamente sutil e forte, cujos planos são de uma beleza única e que conta com incontestáveis valores como elenco, direção, roteiro e uma parte técnica verdadeiramente impecável, somos não só maravilhados e deslumbrados, devastados e emocionados, mas recebemos uma verdadeira aula da arte de amar, e da arte de fazer cinema.

[Atonement, 2007] Dirigido por Joe Wright. Roteiro de Christopher Hampton do livro de Ian McEwan. Com James McAvoy, Keira Knightley, Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Redgrave. [Romance, 130 minutos]

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Responses

  1. Wally, muito boa a sua crítica do filme “Desejo e Reparação”. Faz com que eu tome vergonha na cara em ficar adiando a oportunidade em vê-lo. Parece que todos são unânimes enquanto a qualidade técnica e de elenco da produção, o que ajuda a confirmar sua posição de um dos melhores romances dos últimos tempos. Espero não me decepcionar com o resultado.

  2. No country for old men – esse é “o filme” e ponto final!

  3. Estou ansioso para a cerimônia do Oscar, pois minha torcida por “Desejo e Reparação” está inquebrantável até o momento (eu já vi o favorito, “Onde os Fracos Não Têm Vez” e não fiquei tão surpreendido). Embora o filme possua chances remotas nas categorias centrais (como explicar a não-indicação de Wright?? E porquê McAvoy não está no lugar de Tommy Lee??), já é garantia em muitos quesitos técnicos (acredito que direção de arte, trilha sonora – Dario Marionelli está sublime – e fotografia já são de Atonement). Gostaria de ver Ronan vencendo, embora isto também seja muito difícil.
    Mas, não sei porque, estou esperando por surpresas no dia 24 de fevereiro, até porque o longa metragem já traz o Globo de Ouro como uma bagagem de grande valor.
    Excelente crítica, quem não viu o filme ainda, depois dos elogios, não vai deixar de conferir.

  4. Concordando com o Weiner, minha torcida por “Desejo e Reparação” no Oscar está inabalável, embora seja praticamente impossível alguma vitória nas categorias principais. Também fiquei maravilhado com esse trabalho do Joe Wright, algo que se iniciou com “Orgulho e Preconceito” e chega ao seu ponto mais alto aqui. A primeira hora é perfeita mesmo, ainda que a segunda parte seja muito boa. É complicado comentar sobre o que gostei mais no filme, mas acredito que a direção do Wright seja o principal destaque – por isso é inexplicável sua não-indicação pela Academia. Enfim, se ao menos ganhar os quatro prêmios ao qual concorre (acho que suas maiores chances são para figurino e trilha original), já está de bom tamanho.
    Belíssima crítica, o último parágrafo está brilhante, parabéns (dá para sentir que você se apaixonou tanto pelo filme quanto eu).

    Abraço!

  5. Alex, obrigado e também espero que não se decepcione. É um grande luxuoso filme.

    Alexis (ou seria Leandro?), ainda não o vi, mas devo ainda esta semana.

    Weiner, por enquanto também torço por Atonement no Oscar, e obrigado, realmente espero que as pessoas apreciem um filme tão belo quanto esse.

    Vinicius, muito obrigado, é um belíssimo filme mesmo. Maravilhoso, e Wright merecia sua indicação. Mas espero que vá bem no Oscar.

    Ciao!

  6. É um grande filme, mas eu ainda prefiro o longa dos irmaos Coen.

    Abraço!!

  7. É um belo filme. Vi pela segunda vez e gostei mais. Só que ainda prefiro a primeira metade. Depois de JUNO, é a minha torcida no Oscar.

    Abs!

  8. […] o elenco bastante charmoso e conquistador que, além do já mencionado Statham, tem em Daniel Mays (Desejo e Reparação) um elo cômico bastante […]

  9. […] “ Em um filme extremamente sutil e forte, cujos planos são de uma beleza única e que conta com incontestáveis valores como elenco, direção, roteiro e uma parte técnica verdadeiramente impecável, somos não só maravilhados e deslumbrados, devastados e emocionados, mas recebemos uma verdadeira aula da arte de amar, e da arte de fazer cinema”. CineVita. […]


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