Publicado por: Wally | Domingo, Fevereiro 3, 2008

O Caçador de Pipas

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   Perda e reparação

Após receber um telefonema urgente de um velho amigo de família, Amir decide voltar ao Afeganistão para remediar alguns erros de seu passado. Mas antes, conhecemos um pouco da infancia de Amir e de seu fiel amigo e empregado Hassan, que viviam em um Afeganistão antes da invasão russa.

Já começo este texto avisando que como leitor e grande fã da obra literária “O Caçador de Pipas” de Khaled Hosseini, minha visão sobre o filme será um pouco diferente de quem estiver entrando neste mundo pela primeira vez. Mas uma coisa é certa: lendo o livro ou vendo o filme, voce será cativado e emocionado pela belíssima história. Odeio comparações entre adaptações e fontes. Acho desnecessárias e ridículas, sendo que são dois meios que apresentam perspectivas diferentes acerca de um conto. Por isso saibam que as comparações acabam aqui, mas saibam também que o trabalho do roterista David Benioff foi um trabalho extremamente fiel e realmente apaixonado pelo material. Benioff deixou tudo de importante e só tirou o que realmente passaria despercebido. Por isso, elogio sua sensibilidade quanto à construção da narrativa e a efficiente apresentação dos personagens.

kite3.jpgMarc Forster foi o escolhido para comandar, e nem preciso dizer o quanto esse diretor é eclético. Só notarem as pérolas de sua filmografia. E percebe-se com isso, que é um diretor essencialmente visual e emocional. Nesses dois pontos, O Caçador de Pipas é um primor. Muitos dicordam. Já ouvi inúmeros criticarem sua “frieza” ou sua falta de emoção. Talvez seja porque li o livro, mas eu não consegui me segurar em dois momentos em especiais, tão grande é a emoção. O primeiro sendo a antecipada, extremamente bem editada e chocante (mas ao mesmo tempo sutil) cena que define todo o desenrolar do filme, a outra a já comentada cena onde Amir le uma carta maravilhosa de Hassan, no melhor momento da trilha sonora impressionante e belíssima de Alberto Iglesias, realizando um trabalho realmente memorável. E, voltando ao meu outro ponto, Forster consegue reunir uma ótima fotografia, exemplar direção de arte e um trabalho de figurino extremamente admirável. Todos pontos que ajudam não só na estética contundente do filme, mas na construção de época e local do longa, deixando tudo bem verossímil, não percebendo que o longo foi, na verdade, filmado na China. E também, o fato de usar o Dari como língua e não o ingles ajuda e deixa tudo ainda mais verossímil. Elemento que filmes como O Amor nos Tempos do Cólera e Memórias de uma Gueixa não entenderam a importancia.

Mas se Forster é o coração e o visual do filme, o roteiro incompreendido de David Benioff ajuda a deixar a sessão consistente e inesquecível. É uma história pura, simples e ao mesmo tempo tão profunda e verdadeira que te pega de surpresa. É um conto universal. Fala sobre nossa capacidade de sermos ingenuos e ignorantes, mas também sobre como podemos consertar nossos erros, pensar sobre nosso passado, avaliar nossas escolhas e, de uma forma ou de outra, fazermos uma diferença. Ao vermos Amir no Afeganistão, um país desolado e miserável, em busca de um simples garoto, desperta algo em nós, uma certa incompreensão. Afinal de contas, este homem realmente acha que fará uma diferença salvando uma pessoa entre 200 outras crianças famintas e aleijadas? Alguns acham ridículo essa história de Khaled Hosseini por isso, por acharem implausível um homem conseguir se redimir salvando uma vida quando entrou no inferno e viu outras centenas morrendo. Mas como um certo filme chegou para nos informar, “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro.”. Mas engana-se quem acha que é essa a questão do livro de Hosseini e o roteiro de Benioff. É um longa sobre reparação e redenção, depois da perda de valores e da inocencia, não sobre salvar o mundo ou fazer uma diferença. É sobre a salvação de sí mesmo e de seus valores, sobre respeito e sobre a conquista da felicidade.

Deixando de lado todos esses valores incontestáveis desse filme, preciso confessar que não trata-se de uma obra-prima. Faltou algo, e não sei exatamente o que. De certa forma, achei um pouco corrido. Acho que, em uma tentativa tola, tentaram esmagar a valiosa história de Hosseini em apenas duas horas de duração. Uma escolha que reprovo. Afinal de contas, se Harry Potter pode ter 140 minutos ou até mais, porque não O Caçador de Pipas? Nesse sentido, não gostei de algumas escolhas de Benioff, confesso. Ele poderia ter trabalhado ainda mais a amizade entre Amir e Hassan e o elo entre os dois, como também a viagem de Amir e seu pai aos Estados Unidos. São pecados que deixam que o filme se torne uma verdadeira obra-prima. Mas nem por isso ele não chega perto. É um belíssimo filme bem adaptado, dirigido com imensa sensibilidade e, algo que não mencionei ainda, muito bem atuado. O elenco mirim me surpreendeu, mas ainda mais Khalid Abdalla e Homayoun Ershadi, que fazem Amir e Baba excepcionalmente. A química entre ambos ficou perfeita, irretocável. Recomendo o filme por isso, tanto para quem já leu o livro e para quem é estranho à esse mundo e essa história. É realmente um longa de muitos valores e inúmeras virtudes, que fizeram com que eu saisse da sessão extremamente satisfeito.

[The Kite Runner, 2007] Dirigido por Marc Forster. Roteiro de David Benioff do livro de Khaled Hosseini. Com Khalid Abdalla, Homayoun Ershadi, Shaun Toub, Atossa Leoni, Ahmad Khan Mahmidzada e Elham Ehsas. [Drama, 122 minutos]

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Responses

  1. Vc está certíssimo! Filme é filme. Livro é livro. Concordo. Muitos não sabem separar.

    Mas sem conhecer a história original, pelo menos comigo, o filme não me cativou. E não me mostrou toda a beleza que eu acho que existe no livro. Bom, eu não li. Só vi o filme.

    Abs!

  2. Já disse pra quem quisesse ouvir (e também quem não quisesse) que detestei a não indicação de David Beneioff para o Oscar de roteiro. Mas uma coisa eu não posso deixar de concordar: a amizade entre Hassan e Amir precisava de um pouquinho mais de substância…
    Parabéns pelo comentário…

  3. Não conferi a obra original, mas achei o filme pouquíssimo inspirado. Há algumas ótimas cenas como você disse – além daquela da carta, gostei muito das que envolviam as pipas (tanto a competição, quanto o desfecho). Porém, a trilha do Iglesias contribui em muito para a emoção, para mim não foi algo genuíno do filme. Enfim, é um bom filme, mas esperava mais por ser do Marc Forster.

    Abraço!

  4. Não gostei do filme, principalmente pelas escolhas de Marc Forster (queacho um diretor bem mediano), acho que ele deveria se esquivar um pouco do roteiro e dar mais substancia para a história, ficou muito falso e pior de tudo: extremamente maniqueísta, um tipo de clichê que não me emocionou.

  5. Otavio, como disse na minha crítica, nem imagino como deve ser a sessão para quem não leu o livro. Mas como alguém que conhece o mundo de Hosseini, me emocionei muito. E realmente pessoas precisam aprender a separar livros de adaptações.

    Weiner, realmente esse é um dos pouquissimos defeitos do roteiro de Benioff, que também considero excelente. E obrigado ;)

    Vinicius, como eu disse para o Otavio, acho que a sessão será mais gratificante para quem já leu, e com isso não sei muito bem como deve ser para quem não leu. Mas eu adorei, me emocionei muito.

    Lucas, pelo jeito discordamos muito. Primeiramente sobre Forster, que acho não só eclético mas visionário e sensível, e também acho que não há nada maniqueísta no filme. Alias, acho que muita gente reclamou por faltar certa emoção. Eu, leitor do livro, me emocionei muito e não senti nada manipulador, mas sim, uma história verdadeira e puramente cinematográfica. Mas vivam as diferenças! Hehehehe ;)

    Ciao!

  6. […] Forster (O Caçador de Pipas), por sua vez, tem que ser um dos mais ecléticos cineastas da atualidade. Um diretor com filmes […]

  7. […] e a fraqueza fatal de seu roteiro o faz perder seu equilíbrio. Roteirizado por David Benioff (O Caçador de Pipas) e Skip Woods (Hitman – Assassino 47), o script é uma verdadeira bagunça. Um amontoado de […]


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