Publicado por: Wally | Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

O Suspeito

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       Perdas e danos

A caminho de volta aos Estados Unidos, o estrangeiro Anwar El-Ibrahimi é sequestrado pelo governo americano, suspeito de um envolvimento com um terrorista altamente perigoso. Sua mulher Isabella e seu filho logo começam a preocupar com seu sumiço. O agente Douglas Freeman testemunhou o ato terrorista, onde perdeu seu colega de trabalho. Ele é forçado a testemunhar também a tortura de Anwar para o governo, momento onde começa a questionar suas motivações. Enquanto isso Isabella tenta de qualquer maneira tentar recuperar seu marido que foi ilegalmente capturado.

O Suspeito (nome mediocre brasileiro) é mais um dos vários exemplares a chegar no cinema com o intuito de aletar as pessoas sobre o atual estado da guerra e do governo americano. Construindo uma época de suspeitas e intrigas, o diretor Gavin Hood consegue unir várias narrativas em uma só brilhantemente, pontos claro, á montagem genial. Enquanto seguimos a jornada dolorosa de Isabella para saber se ao menos seu marido está bem, testemunhamos o ato terrível da tortura dele. O diretor ainda consegue amarrar muito bem uma outra narrativa, que é uma passada na África do Sul, acerca de um romance proibido entre um garoto que será um futuro homem-bomba e uma jovem que é filha do atual torturador de Anwar. Mas a verdadeira surpresa chega perto do clímax, em um momento de montagem genial, onde duas histórias paralelas se encontram.

renditiona.jpgMas o filme não é só técnica, e falando nisso, destaco a bela fotografia também. Enquanto Hood expõe o ridículo do governo e os valores pelos quais ele luta, ele faz um estudo de personagem extremamente satisfatório em cima do personagem principal Douglas Freeman, que pouco a pouco vai perdendo sua, digamos, “inocencia”, com isso obtendo uma perspectiva maior e mais exemplificada sobre o que está acontecendo à sua volta. Essa sua percepção acaba o levando à um imprevisível ato, que irá causar mais danos que o governo estava prevendo, que por sua vez tenta a qualquer custo jogar suas sujeiras por debaixo do tapete. Em meio à tudo isso, excelentes diálogos, como um entre Douglas e Corrine, que trabalha para a CIA. Quando ele é abordado por ela, confessa à ela estar passando por sua primeira tortura. Ela o corrige dizendo que os Estados Unidos não tortura. Chega a ser engraçado de tão ácido e verdadeiro. Nesse diálogo é exposto não só a ingenuidade de Freeman em meio a isso tudo, mas a frieza e o calculismo de Corrine, com a resposta pronta na ponta da língua, simplesmente não admitindo que a verdade seja dita, “a favor de um bem maior”.

Temos um elenco ótimo por trás dos ótimos diálogos. O destaque vai para, óbviamente, Meryl Streep. Encarnando uma mulher que vai a qualquer custos para manter sua imagem ao mesmo tempo que toma decisões perigosas. A participação dela é pequena, mas extremamente satisfatória. Em momentos, porém, divide a tela com performances ainda menores  mas admiráveis como as de Alan Arkin e J.K. Simmons. Também admirei muito a performance de Reese Witherspoon, que demonstra sua angústia de forma contida, finalmente explodindo quando não aguenta mais ser ignorada. Peter Saarsgard é outro triunfo. Como sempre, fantástico, mesmo em pequeno papel. É dono dos melhores diálogos do filme, como um que ocorre entre ele e Streep. Por outro lado, o sempre ótimo Jake Gyllenhaal tenta (muito!) entregar verossimilhança ao seu personagem sofrido e indeciso. Apesar de capturar muitas vezes tais sentimentos árduos, Jake infelizmente soa deslocado quando tenta deixar o personagem fisicamente abatido. Mesmo assim, é uma boa performance por capturar outras nuances do personagem perfeitamente. Só acho que não tenha sido exatamente o casting perfeito. Os mais desconhecidos na tela não fazem feio aos demais, principalmente Yigal Naor e Omar Metwally.

O intuito maior do filme de Gavin parece ser o de denunciar os atos de terrorismo do próprio governo americano, que apesar de não estarem mandando homens-bombas explodirem prédios e praças, capturam ilegalmente pessoas simplesmente mencionadas perto de nomes perigosos e as torturam até terem o que querem. Tal denúncia muitas vezes cai no óbvio, mas aí surgem perguntas. Até onde os torturados aguentam, e o que fabricam simplesmente para evitar o sofrimento? Questões como esta são levantadas e muitas respondidas com consistencia pelo roteiro exemplar, que permite que seus personagens não se tornem seres unidimensionais, não só os deixando fascinantes mas entregando crueza aos seus atos, às suas emoções e às suas decisões. Decisões estas que podem decidir o rumo das coisas, que podem (ou não) causar danos consideráveis à um sistema aparentemente perfeito e à prova de falhas. O personagem de Saarsgard faz uma escolha, a de continuar sendo um cidadão americano ignorante e covarde, construindo sua carreira o lado de senadores e nomes importantes. Do outro lado, o personagem de Gyllenhaal descobre que as coisas não são como aparentam, e faz uma escolha que não só mudou o rumo da vida de cinco pessoas (incluindo a dele), mas provou que o sistema tem (muitas) falhas. Por não só ser um filme que levanta questões mais que relevantes, mas um que também cativa e emociona, recomendo O Suspeito mais que muitos dos filmes lançados ano passado divindo as mesmas intenções valiosas.

[Rendition, 2007] de Gavin Hood. com Jake Gyllenhaal, Reese Witherspoon, Omar Metwally, Yigal Naor, Meryl Streep, Peter Saarsgard, Alan Arkin, J.K. Simmons, Zineb Oukach e Moa Khouas. [Drama, 120 minutos]

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Responses

  1. Wally, às vezes também tenho alguns problemas com as fotos, mas no meu antigo blog no Blogger também ocorria a mesma coisa – e até com mais freqüência, por isso mudei. Enfim, que bom que conseguiu postar o que queria ;)

    Quanto ao filme, quero muito ver, ainda mais depois de seus elogios – sem falar no elenco acima da média. Abraço!

  2. Wally, eu perdi esse filme em mais de umas cinco oportunidades diferentes no cinema, de outubro a janeiro, agora saiu de cartaz de vez, soh em dvd mesmo:-S E lendo a sua critica positiva, sinto ainda mais pena por nao te-lo visto. Gosto da trama do filme e do elenco (Streep, Arkin, Gyllenhaal) que eh excelente.

  3. Além do clima de tensão que Gavin Hood consegue criar na parte da “fuga do suspeito”, o ponto alto do filme foi a pequena mais sempre genial participação de Meryl Streep.

    Abraço!!

  4. Poxa vida, saíu de cartaz mesmo.. então so mesmoe m DVD que vou assistir… mas uma vez ytenho que aplaudir o cinema da minha cidade, ahahah
    abraços

  5. É, Wally, “O Suspeito” realmente é um filme que no instiga a pensar. Até que ponto irá esta paranóia mundial acerca do terrorismo? Em 2005 vimos um brasileiro inocente ser confundido com um terrorista e receber diversos tiros de uma polícia que se dizia treinada; e no fim, apesar de culpados pela Justiça, os oficiais ingleses pagaram apenas uma multa…?! “O Suspeito” trabalha com esta temática de maneira bastante responsável:ao invés de criar uma série de fantoches patriotas, revelou personagens execráveis, em especial Isabella, a personagem de Meryl Streep. Sua hipocrisia deixou que ela soltasse a seguinte pérola: “A América não pratica a tortura”. Sei, acredito. É por isso que adoro a Meryl, é uma atriz tão perfeita (a melhor da história na minha opinião), que se envolve com competência nos mais variados papéis. Além dela, destaco as atuações de Gylenhaal e Reese, dois dos grandes nomes do cinema comtemporâneo.

  6. Wally, gosto muito do trabalho anterior do Gavin Hood, “Infância Roubada”. Bom ver que “O Suspeito” segue um caminho bem diferente dessa primeira obra dele, que era um trabalho que tinha uma crítica social muito pequena, mas falava, principalmente, de um jovem que recupera o foco em sua vida. Vê a chance de remediar as coisas que fez antes.

    Esse “O Suspeito”, como seu próprio texto confirma, dá uma ênfase maior à denúncia social e política. O interessante é ver que parece que o filme não se perde nisso e tem um valor.

    Espero que estréie por aqui!

  7. Vini, valeu ;) E procure ver, achei muito bom. Me empolgei vendo o filme.

    Romeika, então assim que chegar em DVD veja, pois vale muito a pena.

    Pedro, concordo. Streep é a melhor do elenco e fiquei bem empolgado com o clima do filme.

    Rodrigo, procure ver e assista assim que puder. Vale a pena.

    Weiner, concordo completamente. Eu achei um filme não só denso e relevante, mas muito bem arquitetado e atuado.

    Kamila, ainda não tive a oportunidade de ver Tsotsi, porque não estreiou aqui e não chegou nas locadoras, mas verei assim que puder. E veja O Suspeito sim, é muito bom!

    Ciao!

  8. […] virtuosidade, é inevitável ser carregado pelo poder das atuações e, além de uma Meryl Streep (O Suspeito) novamente incrível, encarando seu papel com especial densidade e presença intensa, cheia de […]

  9. […] Jake Gyllenhaal (O Suspeito) e Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) irão contracenar novamente em Love and Other Drugs (ou […]

  10. […] Gyllenhaal (O Suspeito) e Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) irão contracenar novamente em Love and Other Drugs (ou […]

  11. […] pelo talentoso Gavin Hood (O Suspeito), que assinou a direção do ótimo vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, "Infância […]


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