Publicado por: Wally | Domingo, Janeiro 20, 2008

Império dos Sonhos

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Mais Estranho que a Ficção

Nikki, uma atriz bonita e bem sucedida ganha um papel em um filme promissor. Aprende, porém, que o longa seria uma refilmagem e que teve um passado bem sombrio. Ao começar a rodar o filme, se apaixona aos poucos pelo seu parceiro de cena e começa a ter dificuldade em distinguir o real entre a ficçao.

A sinopse acima é, no mínimo, ridícula. Pegar esse filme de Lynch e simplesmente o simplificar em tres linhas é algo vergonhoso. Coloquei acima, porém, para perceberem como Império dos Sonhos é um filme que foge de explicações rasas e convenções e claro, porque sempre coloco uma sinopse em minhas críticas. A questão é que sou fascinado pelo cinema de David Lynch. Império dos Sonhos é o segundo filme que vejo do diretor (o primeiro foi o sublime e até mesmo superior Cidade dos Sonhos) mas sinto como se já conhecesse o diretor por uma eternidade. Além de ousado e extremamente inusitado, é um cineasta que não deseja apenas contar histórias e fazer estudos de personagens (apesar de fazer isso incrívelmente bem) mas sim, mergulhar a fundo na mente humana, desvendar impulsos, emoções, sentimentos, medos e tudo que move um ser humano. O filme, portanto, poderia ser chamado até mesmo de Império dos Sentidos, pois é um filme sobre sentimentos, e um que fará o espectador sentir como nenhum outro filme no ano.

empire.jpgPrimeiramente, para ver um filme de David Lynch, ou pelo menos este, precisa-se abordá-lo com a mente completamente aberta e preparado não para um conto convencional, mas uma viagem profunda e intensa. Seu filme não segue cronologia, regras ou padrões. Alguns dizem que Lynch nem trabalha com roteiro, que vai pensando nas coisas enquanto trabalha. Se isto for verdade, fiquei ainda mais impressionado pelo diretor, pois apesar de aparentemente irregular e bizarro, seu filme é repleto de significado e sentimento. Mas como um verdadeiro sonho, e é isto que o filme é, necessita-se ser irregular e bizarro, entre outras coisas. Mas acima de tudo, o filme move, incita os mais diversos sentimentos. Sensações estas que o personagem retratado por Lynch sente. O que era um sonho, torna-se um pesadelo. Enquanto sentiamos prazer, logo começamos a temer ao lado da personagem. Somos deixados tensos, instigados, completamente envolvidos. Por 3 horas de duração, entramos em um mundo que é ao mesmo tempo pertubador e fascinante, como é qualquer parte da mente humana.

Vale notar que Lynch não é apenas diretor e escritor aqui. Ele foi, além de produtor, o cinematógrafo, o editor, esteve no departamento de arte, de som e foi operador de camera. O filme é dele. Os sons, as imagens, tudo fica na sua mente. É dificil esquecer certos momentos. Seu cinema é intensamente poderoso, e realmente mexe com voce, emocionalmente e fisicamente. É uma experiencia que transcende qualquer outra. Aí surge a pergunta, mas não incomoda? Em certos momentos, fui incomodado, deixado perplexo, até mesmo irritado. Mas a verdade é que estamos na mente de alguém e tudo que ela sente, acabamos sentindo também. É a força principal do filme. E aí entra Laura Dern, em uma das melhores atuações da década, será uma pena quando o Oscar não lembrar dela. Ela está além de fantástica, pois não entrega apenas uma performance, mas várias, e faz cada uma de forma única e soberbamente. Ela ta inesquecível, e faltam-me palavras certas para fazer jus à sua performance.

Pará por aqui minha resenha e começo a baixo, uma pequena análise sobre o filme. Não leiam quem não viu o filme, a não ser que queiram saber exatamente o que será. Ou seja, aqui encontram-se spoilers:

No poster do filme, vemos uma imagem de Laura Dern e a frase “Uma mulher em perigo”. A mulher em perigo não é, exatamente, a personagem de Laura Dern. O fato é que a personagem de Laura Dern não existe. Antes dela aparecer em cena, vemos uma mulher morena, chorando, vendo televisão. Nos créditos finais, ela é creditada como ‘Garota Perdida’. Ela é a mulher em perigo. O que se segue, após a cena onde vemos ela, é uma imagem de um apartamente onde residem coelhos, agindo como pessoas comuns. Minha teoria é de que trata-se do inconsciente da garota perdida. Vemos ela, depois vemos seu inconsciente e depois começa o que foi fabricado no inconsciente, o sonho. “Onde estrelas fazem sonhos, e os sonhos fazem estrelas”. No sonho, a garota perdida é uma bela atriz loira, bem sucedida, com um marido rico e cheia de oportunidades. Reflete o contrário da vida da garota perdida, que tem um marido fracassado e sem respeito, e que não consegue lhe oferecer uma vida aceitável. Seguimos vendo o sonho da garota, ela é uma atriz (papel de Dern), ganha um papel e começa a encená-lo. O papel é de uma refilmagem. E a partir daí, cria se uma espécie de loop mental na cabeça da garota. Seu sonho fica desfigurado e ela começa a se perder completamente. A refilmagem se mistura com o filme original, falado em polones, que se mistura com a sua vida real, onde é pobre, mal tratada pelo marido e sempre sofre. Ou seja, a garota infeliz sonhou com a cidade dos sonhos, Hollywood, onde é atriz, com uma vida glamourosa. Mas seu sonho logo vira um pesadelo. Ela portanto, se torna a garota perdida. Perdida entre seus próprios sentimentos, suas angústias, seus medos e seus desejos. Mas o filme é mais que isso. Meticuloso ao extremo, existem ainda detalhes a serem compreendidos, personagens a serem interpretados e muita coisa subjetiva. Prestem atenção nos momentos onde aparece escrito ‘Axxon n’, quando ela fala “Eu não sou quem voce pensa que eu sou” e nos personagens do marido e do fantasma. São dicas e também enigmas. Não vou tentar decifrá-los aqui. Acho que podem sim, ser lidos e decifrados. Mas a verdade é que Império dos Sonhos, com toda sua complexidade, não é um filme para ser decifrado, mas um para ser sentido.

[Inland Empire, 2006] Escrito e dirigido por David Lynch. Com Laura Dern, Justin Theroux, Jeremy Irons, Karolina Gruszka, Peter J. Lucas e William H. Macy. [Drama, 180 minutos]

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Luciano Lima do A Sala


Responses

  1. Parabéns pelo texto Wally. Você disse tudo: ultimamente o cinema de Lynch é mais para os sentidos que para o entendimento comum.

    Como todo Lynch, minha teoria sobre o filme tende para o lado da traição e do pavor de conseqüências desastrosas, mas o começo do seu entendimento é exatamente o que penso. Valeu pela menção ;-)

  2. Como sabe ainda não vi esse filme, acho que só irei conferir em DVD mesmo. Não entendo o cinema do Lynch, só sei que gosto bastante ;) E que bom saber que esse não é ‘apenas mais um filme’ da Laura Dern.

    Abraço!

  3. Acho David Lynch um cara com uam visão além do seu tempo… sempre inovando, afzendo vc refletir, buscar respostas a diversas pérgunats que permanecem…além de ter uma beleza estética incrivel nos filmes…
    ahh,a normalmente as sisnopses de gradnes filmes são ridiculas, pega os do proprio Lynch… resumir em tres linhas por exemplo o filme “cidade dos sonhos” é sacanagem…
    abraços

  4. Wally, resumiu muito bem a proposta do cinema de Lynch. Só não tenho muito que dizer por que ainda não consegui ver o filme, como você já sabe. Dizem que o filme prega inúmeros sustos. Poderia me dizer algum sem revelar nenhum segredo em especial?

    Excelente semana.

  5. Eu perdi esse… me resta o DVD.

    E ótima análise, Wally. Deu vontade de ver.

    Abs!

  6. Luciano, penso muito sobre o filme, e na minha opinião, isso é o fascinante dos filmes de Lynch. Não existe apenas uma interpretação, mas várias. E o que escrevi acima é só um pouco do que conclui vendo.

    Vinicius, realmente não é apenas mais um de Dern. Vou ficar muito triste quando ela não for indicada ao Oscar. Veja o filme, é fantástico.

    Rodrigo, é exatamente por aí mesmo. Sou muito fã dele.

    Alex, obrigado, quando voce tiver visto o filme, comentaremos melhor, incluindo sobre os sustos. Como eu disse, Lynch é um mestre de sons e visuais e ele cria um verdadeiro pesadelo com o filme. Em certo momento de Império dos Sonhos, a atriz olha para um homem e ve o rosto dele completamente distorçido. É um momento assombrador e sim, provoca um certo susto.

    Otavio, obrigado, e tente ver, porque é excelente.

    Ciao!

  7. Tenho uma relação de amor e ódio com o David Lynch. O único filme dele que eu gosto é sua obra mais convencional, “História Real”. O seu texto me deixa querendo ver esse “Império dos Sonhos”, mas só um pouquinho. ;-)

  8. Wally, adorei o texto inspiradíssimo e mais ainda a sua interpretação do filme, me fez compreender tudo um pouco melhor, então numa segunda visita ao filme, irei mais ciente do mesmo (eu preciso de alguma lógica pra chegar a absorver a idéia, por mais louca que seja..). E no final, concordo com a sua última frase, e a aplicaria perfeitamente em “Veludo Azul” e “Cidade dos Sonhos”, filmes que apesar de me confudirem um pouco (que filme de Lynch não o faz?), foram igualmente emocionantes.

    Acho que o cinema do diretor é por aí, sentir ao invés de racionalizar e compreender.

  9. […] por um elenco secundário experiente e maduro, mas ninguém tão sensacional quanto Laura Dern (Império dos Sonhos), que está espetacularmente bem ao compor os trejeitos e a simples transparência de Katherine […]


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