Publicado por: Wally | Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

O Preço da Coragem

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Medo da verdade

Dois repórteres casados, Daniel e Mariane Pearl, embarcaram para o Paquistão com uma Mariane grávida e um Daniel investigando e entrevistando para uma matéria para o Wall Street Jornal. Certo dia, Daniel decide entrevistar Sheikh Gilani e não volta. Mariane, desesperada atrás do marido, sabendo os riscos que corre por ser Judeu, procura ajuda. Com isso, inicia-se uma investigação acerca do paradeiro de Daniel e quem foram os seus sequestradores.

Mais um filme sobre uma época pós 11 de Setembro, este O Preço da Coragem (nome nacional desnecessário que deveria ter sido ‘Um Poderoso Coração) é baseado em fatos reais e acerca de uma tragédia que chocou o mundo. O diretor Michael Winterbottom, fez recentemente o elogiado O Caminho para Guantanamo, um filme cujos aspectos documentais são chocantes e os dramáticos superficiais. Mas parece que Winterbottom finalmente acertou a mão. Apesar de faltar um pouco mais de autenticidade ao filme, e o drama não fluir da melhor forma, acaba te envolvendo e não está preocupado em somente fazer uma análise política e social sobre o acontecimento (apesar de fazer isto muito bem) mas trabalha muito os sentimentos de Mariane no meio de tudo. Ou seja, cerca as consequencias devastadoras no mundo político gigante, mas também no pequeno mundo de Mariane, e isto foi sim, desculpe-me o trocadilho, bem corajoso.

mighty2.jpgO Preço da Coragem está também diretamente conectado com os conflitos revelados no filme de Guantanamo. Como preço do resgate de Daniel, os terroristas propoem que os americanos deixam de tratar os prisioneiros de Guantanamo como animais. Não só isso, mas o cuidado do governo americano em não transformar a situação em escandalo. Além disso, ambos filmes falam sobre o medo de aceitar a verdade, o medo de encarar a triste e infeliz realidade. Mariane teme por seu marido, como também por seu filho, e o sentimento de medo é transferido de forma maravilhosa por Angelina Jolie, na melhor performance de sua carreira (sem exageros). Determinada, corajosa e querendo de qualquer forma achar seu marido. Apesar de tudo isso, uma vulnerável mulher, devastada, quebrada e ao mesmo tempo, em busca da verdade mas morrendo de medo dela. Essa composição de personagem tremenda é o destaque do filme. Que mesmo que falhe em momentos, se sai maravilhosamente bem sucedido como estudo de personagem.

Mariane, além de tudo isso, sofre também com as consequencias iminentes ao mundo político, se deteriorando aos poucos ao seu lado. E o mais admirável em Winterbottom é não fazer um filme sensacionalista, mas sim, um intimista, sincero e ainda assim, comovente, em seu modo único e especial. Talvez por tratar os sentimentos de Mariane de forma tão admirável, ou até mesmo por não querer chocar, mas seguir sua narrativa de forma sutil, mesmo que em alguns momentos a tensão seja palpável. É cinema jornalístico acima de tudo, e apesar de não admirar esse estilo semi-documental (sou mais o estilo demonstrado em Voo United 93), foi fácil perceber as virtudes do longa, sua sensiblidade e ainda um desfecho memorável que soa até mesmo poético. A celebração da vida, o filho de Mariane nascendo, depois da trágica e brutal morte de seu marido.

Me vejo, no final das contas, recomendando o filme, mesmo não sendo muito fã de Winterbottom, este seu filme me surpreendeu. Por todos os motivos listados acima e principalmente pelo efeito duradouro que deixa em voce. É memorável. Não do típo de filme que voce esquece rapidamente. O elenco todo satisfaz, principalmente Jolie. E apesar da falta de ritmo, do estilo documental que deixa momentos muito frio e algumas cenas desnecessárias, acho que ninguém deveria deixar de ve-lo. É importante, necessário e poderoso, em um tempo de conflitos, seja de armas ou de ideais, o filme chega nos revelando uma tragédia que mecheu com o mundo todo, emocionalmente ou politicamente. De certa forma, essa tragédia uniu o mundo. Não importa se eram judeus, americanos, terroristas, iranianos ou que seja, todo mundo parou e contemplou.

[A Mighty Heart, 2007] de Michael Winterbottom. com Angelina Jolie, Dan Futterman, Archie Panjabi, Mohammed Afzal, Irfan Khan, Aly Khan, Denis O’Hare, Perrine Moran, Gary Wilmes. [Drama, 108 minutos]

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Marfil do Spoiler Movies
Vinícius do Blog do Vinicius
Otavio do Hollywoodiano
Matheus do Cinema e Argumento
Kamila do Cinéfila por Natureza


Responses

  1. Não conhecia o estilo do Winterbottom até ver esse “A Mighty Heart”. Também prefiro a forma semi-documental mostrada por Paul Greengrass em “Vôo United” 93. Falta emoção em alguns momentos, arrisco até a dizer que faltou a sensibilidade de um Fernando Meirelles na direção – “O Jardineiro Fiel”, que guarda semelhanças com esse filme, é um dos meus preferidos da década. O grande destaque é a Jolie, numa performance corajosa e que merece ser reconhecida.

    Abraço!

  2. Wally, você entendeu bem o estilo do Winterbottom: ele tem esse caráter documental, esse cinema que você chamou jornalístico. Por isso, muita gente se incomoda com os trabalhos dele e o acusam de ser “frio e distante”.

    Acho “O Preço de uma Coragem” um dos ótimos filmes de 2007 porque ele retrata a jornada de uma mulher admirável. Mariane Pearl, com sua força e serenidade, enfrentando com muita dignidade uma situação que deixaria muita gente perdida.

    Além disso, acho que o ponto alto do filme é mostrar pessoas de diferentes etnias lutando em prol do retorno seguro de Daniel Pearl à sua esposa grávida – algo que, infelizmente, não acontece.

    E a cena do grito de Jolie, para mim, é A cena de 2007. Ela merece, completamente, todas as indicações que têm recebido no ano.

  3. Eu entendi o estilo documental desse diretor, mas, para mim, isso é enganação. Não é cinema. Prefiro o que o MIchael Moore faz.

    Wally, valeu pelo link.

    Abs!

  4. Vinicius, também adorei Jolie, e concordo com voce que O Jardineiro Fiel é o melhor desse estilo. Meirelles tem uma sensibilidade e profundidade que Winterbottom não atinge, mas nem por isso o filme ficou ruim. Achei ótimo.

    Kamila, também gostei muito desses pontos que voce colocou. Apesar de seus problemas, é um ótimo filme mesmo que de certa forma achei incompreendido por muitos.

    Otavio, Moore realmente faz cinema jornalístico bem mais empolgante, vide Tiros em Columbine e Fahrenheit 11 de Setembro, mas gostei desse de Winterbottom.

    Ciao gente!

  5. Wally, tb me agradou esse cinema meio documental, apesar de parecer um tanto frio na maioria das vezes, mas aquele grito da personagem no momento da constatação é memorável.. Realmente a Angelina se entregou nesse papel. Concordo com suas impressões sobre o filme e com a sua observação final.

  6. Confesso que esperava mais emoção e dramaticidade, entretanto, foi tudo passado para um segundo plano com a ótima interpretação da Jolie. Como adoro demais Angelina Jolie queria que ganhasse o Globo, mas sei que não seria possível.

    Falou..


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