Publicado por: Wally | Sábado, Dezembro 22, 2007

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

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Paixão de fortes

O fora da lei Jesse James é um homem de família com um preço em sua cabeça. Suspeita de todos e anda sempre olhando para trás. Robert Ford é um jovem que vê Jesse como um herói. Ele idolatra o caubói, e se junta a gangue para melhor conhecer Jesse, entrando em sua vida de suspeitas, assassinatos e conspirações. É nesse momento onde Ford descobre que o Jesse James do qual ele achava que conhecia era bem diferente do verdadeiro.

Em um filme sobre sentimentos, beleza e a estranheza da vida, conhecemos dois fascinantes personagens. Apesar da premissa dar a impressão de que este filme se trata de um faroeste, a verdade é que o filme dirigido pelo desconhecido Andrew Dominik (cujo trabalho anterior é um filme independente nada conhecido) é uma viagem lenta através das belas paisagens de locações maravilhosas e a ligação inesperada que ocorre entre duas pessoas ao mesmo tempo parecidas e distintas. O mundo de Jesse James, veterano do velho oeste, pai de duas crianças que o adoram e marido de uma devota esposa, colide com o de Robert Ford, um jovem inseguro com desejos e ambições mas que não consegue evitar sua paixão nada convencional pela figura que tanto venera e admira. Os personagens complexos e de sentimentos inesperados são o destaque do filme de Dominik, além de claro, o visual de tirar o fôlego.

Mas não levem a mal, Ford não ama James, mas sim, o idolatra. É uma espécie de paixão platônica. Dominik compreende muito bem os sentimentos dos dois homens, que precisam lidar não só com admiração, mas com o medo que envolve ambos. Muitas vezes, a tensão é palpável. É aí que entra em cena os atores. Pitt e Affleck demonstram voracidade na tela como dificilmente vemos. Com olhares e expressões, constroem tensão e uma química impressionante. Brad Pitt está notável, na melhor atuação de sua carreira, construindo um personagem de apenas maneurismos que se torna tão complexo e verdadeiro como provavelmente foi Jesse, o sentimento que ele envia é autêntico e sua performance magistral. Mas ao seu lado, Casey Affleck brilha um pouco demais, acabando com o ego do astro. Casey cria seu personagem maravilhosamente bem. Nós vemos sua evolução do início do filme até o fim e somos fascinados por ela. O homem do qual ele se tornou, sem paixão e sem desejos, miserável, incompreendido e, sim, patético. O caminho traçado porém, é um feito exclusivo do marcante roteiro, que inclui diálogos perfeitos e narrações extremamente significativas, nunca caindo no excesso.

jessejames2.jpgNo meio de tudo isso,  a estética deslumbrante. Em uma explosivamente bela fotografia, viajamos em meio à paisagens gloriosas. Não só isso, mas o fotógrafo do filme, Roger Deakins, compreende as intenções poéticas do cineasta, e complementa usando movimentos de câmeras lentos, longos e significativos, além de captar, com certo brilhantismo, sombras e tons fortes, como também a claridade do sol contra as paisagens. É um trabalho de mestre. E ao seu lado, uma iqualmente bela direção de arte, figurino,  e uma montagem essêncial para o desenvolvimento do filme, que apesar de longo e lento, nunca cansa, mas envolve. Mesmo sabendo o fim do filme, somos instigados. A trilha sonora é outro fator maravilhoso neste filme. É muito bonita, e entrega um sentimento de precisão e beleza ainda maior à obra, na qual cada cena representa uma obra-prima de visual e sentimento. A competência do diretor, imensa, se torna evidente nesses momentos. Ele não deixa seu filme se tornar apenas um show de estética, da parte técnica e de seu emblemático elenco. Trabalhando poeticamente seus personagens e seus conflitos externos e internos, ele brinda a audiência com genialidade acima da qual esperávamos.

A chave do longa, porém, encontra-se em seu final. Obviamente, precisamos chegar ao desfecho para, por exemplo, descobrirmos a evolução eletrizante do personagem Robert Ford, e ainda melhor, presenciarmos a estônteante cena onde Jesse James é brutalmente assassinado pelo seu mais próximo companheiro. O curioso nisso tudo é que James parecia saber seu destino, desde que a cena começa, ele já emite certa desconfiança quanto á Ford e às notícias que acaba de receber. Ainda mais curioso é como ele aceita seu destino, virando as costas para encarar a iminente morte. É nesse momento onde percebemos a devoção de sua mulher e, principalmente, é o momento decisivo de Ford, o momento que definirá sua vida para sempre. E aí é que vem a parte fascinante do filme, os destinos estranhos e distintos de seus personagens. James, famoso fora da lei assassinado covardemente por Ford, logo tem sua morte como notícia principal. Tiram a foto de seu cadáver, vendem, e exibem sua casa como uma espécie de museu. O destino de Ford já é o contrário. Não irei entregar o que acontecerá no final, mesmo que seja um leve spoiler, mas a questão é a estranheza que cerca os destinos de ambos personagens, aí que está a beleza do filme, sua poesia, sua maestria. Dominik conduz tudo tão bem que a obra sofisticada e impecávelmente detalhada se torna automáticamente sedutora e irresistível. Logo, os 150 minutos de filme se tornam em duas horas e meia de pura glória, sentimento, beleza e emoção. Bravo!

[The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, 2007] de Andrew Dominik. com Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Rockwell, Jeremy Renner, Zooey Deschanel e Mary-Louise Parker [Drama, 160 minutos]

robertford.jpg

Otavio Almeida do Hollywoodiano  StarStarNo StarNo Star
Ronald do Cine Art  StarStarStarStarNo Star


Responses

  1. Fiquei bastante surpreso com essa sua crítica, mas parece que o filme já tem muitos fãs mesmo. Pena que ainda não chegou por aqui, pois estou bem curioso para ver as atuações do Casey Affleck e do Brad Pitt, além da elogiada fotografia.

    Abraços!

  2. Adorei o texto, Wally. Esse filme, assim como “Conduta de Risco”, nem dá sinais de que irá passar nos cinemas daqui. E os dois filmes eu quero muito assistir.

  3. Eu não coloquei muita fé neste filme quando começou os rumores sobre ele…mas estou ficando surpreso com as críticas! Texto muito bom o seu…
    Conheci Casey Affleck no excepcional Gerry, de Gus Van Sant! Ele tem expressão versátil…percebe-se que pode fazer performances variadas, como Cillian Murphy por exemplo!
    E Pitt está merecendo um Oscar viu…! Um ator que só cresce! Em breve ele se arrisca na direção, como já ouvi comentários por ai!
    Abraço!

  4. Faroeste é gênero de macho! Não gostei desse filme lento, longo e com cara de filme publicitário…

    Faroeste lento só com Sergio Leone!

    Mas o texto ficou muito bom… fazer o q?

    Abs!

  5. Cara, valeu pelo link! FELIZ NATAL!

    Abs!

  6. Não sou muito de fã de faroeste, mas adorei o comentario. Vou conferir!

  7. Não sei o seu nome, mas eu estou montando um blog é por sorte encontrei a sua crítica sobre o filme. Enfim, gostei muito e tomei a liberdade de adcionar a sua crítica ao meu layout.
    Espero que vc curta e quem sabe montar outros trabalhos.

    Da uma olhada: http://www.dvinci.blogspot.com
    Abraço

  8. […] a Morte) e, principalmente, Ralph Fiennes (O Leitor). Mas quem merece os elogios é Jeremy Renner (O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford), que exibe uma força sincera e pungente por trás de sua atuação, realmente nos convencendo do […]


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