Publicado por: Wally | Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

Medos Privados em Lugares Públicos

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Sob a neve de Paris

Se passando em uma Paris dominada pelo frio e a neve, conta a história de seis pessoas cujas vidas são interligadas por coincidências e pelo acaso. Dentre essas pessoas, um casal prestes a casar mas com diversos problemas, uma religiosa com segredos, um agente de imobiliária distante de sua jovem esposa e um ‘bar man’ cuidando de seu pai.

Dirigido por Alain Resnais, um veterano do cinema francês cujos trabalhos não conheço. Este filme é um bom drama acerca de relacionamentos, solidão e a busca pelo amor, em feio ao frio congelante de Paris, sob a neve. A neve do filme é usada particularmente bem, como uma espécie de metáfora acerca da frieza que separa os personagens, distantes um do outro. A solidão domina, e mesmo que não seja nada original, dessa vez Resnais fez o que González Iñarrítu e Sofia Coppola haviam feito com a cidade de Tokyo. Paris, apesar de cheia de amor e bem populada, abriga pessoas tão sozinhas e distantes uma da outra, em busca de um sentimento pelo o qual talvez nunca encontrarão.

Talvez o único pecado do filme seja a falta de autênticidade em momentos, quando algo é muito previsível ou talvez até forçado. O diretor usa a neve contínua como transição entre uma história e outra, e isso funciona até certo ponto, sendo esse quando percebemos que cai no excesso, já que são muitos cortes. Porém, suas intenções são válidas, e durante muitos momentos não consigo deixar de admirar a sensibilidade e a competência do diretor. O roteiro também é ótimo, com bons diálogos e personagens complexos, cujas conexões são bem estabelecidas, nunca soando absurdas ou irregulares. Ao final da sessão, você sente por cada um deles, sentindo certa simpatia, ou até mesmo pena.

As dores e as barreiras pelas quais os personagens precisam enfrentar acabam te tocando, como também o destino deles, sendo muitos até mesmo infelizes. Infelicidade causada pelos seus medos. O medo de ser íntimo. O medo de amar, de ser só, o medo de encarar a realidade. Seguimos esses personagens por momentos cruciais de suas vidas. Seus sentimentos são tratados com crueza por muitas vezes, sendo estes os melhores momentos do filme. O longa de Resnais só não é melhor por muitas vezes tratar os sentimentos não com a crueza mencionada, mas com melancólia em overdose. O filme é altamente melancólico, mas seu humor e seus personagens convincentes fazem com que isso não se torne um incômodo, mas um fator essêncial na vida destas pessoas.

Triste, comovente e engraçado, é um ótimo filme bem recomendado. Possui suas falhas, e pode acabar incomodando pela sua lentidão, como também sua trilha sonora fraquíssima, me lembrando demais de trilhas de filmes de televisão, péssimas. Por outro lado, possui ótimas performances do elenco, um visual recompensador, boa montagem e, como já mencionado, uma imensamente sensível direção por parte de Resnais, um diretor que entende o ser humano e trata seus personagens com a devida sinceridade e muita responsabilidade. No estilo, filmes como Simplesmente Amor me vem a cabeça, mas o filme de Resnais está mais para o melancólico e a análise emocional de seus personagens, do que o humor e os personagens divertidíssimos do longa americano sobre amor. Sem dúvida alguma, recomendado. Principalmente para aqueles que achavam que em uma cidade bela e apaixonante como Paris não existia solidão e tristeza.

[Coeurs, 2006] de Alain Resnais. com Sabine Azéma, Lambert Wilson, André Dussollier, Pierre Arditi, Laura Morante e Isabelle Carré. [Drama, 120 min.]

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Responses

  1. Não gostei tanto no momento em que o vi, mas reavaliando em seguida percebi como sua trama era poderosa. Gostei da comparação com “Simplesmente Amor”, não tinha pensado nisso antes – ainda que aqui o clima seja mais dramático. Vale mais por sua técnica (ótima direção de arte, especialmente por ser um filme contemporâneo) e o inspirado elenco.

    Abraço!

  2. Alan Resnais não me traz boas lembranças… “Amores Parisienses” foi péssimo.

  3. Xi… não vi. Mas gostei da sua crítica. Pretendo assistir em breve…

    Abs!

  4. Não conheço muito da obra do Alan Resnais, mas anotei a dica aqui.

  5. Um dos melhores do ano, sem dúvida…
    Também fui ver no metrópolis dia desses…


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