Publicado por: Wally | Quarta-feira, Dezembro 5, 2007

A Lenda de Beowulf

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Deuses e monstros

Hrothgar reina sobre uma terra amaliçoada pelos seus erros do passado. A criatura abominável, Grendel, é uma aberração da natureza que ameaça seu império e mata sua população brutalmente. Beowulf, um jovem guerreiro destemido, chega para dar um fim à loucura e responder as preces do rei. Mas o que parecia ser uma simples tarefa de assassinato, logo se torna uma complexa jornada pelos horrores da terra, quando a ameaça prova ser bem mais que Grendel.

Robert Zemeckis parece ser fascinado por inovação. Por toda sua carreira, até seus filmes mais medianos ou simples demonstravam conquistas técnicas admiráveis, com movimentos de câmeras excepcionais, contos ousados ou técnicas revolucionárias. Em 2004, Zemeckis nos brindou com a aventura infantil maravilhosa O Expresso Polar, uma animação que utilizou, pela primeira vez, o motion captura, que permite que as expressões do ator em sí possa ser transmita por meio tecnológico à animação digital. O visual foi glorioso, e a história, mágica. Com isso, chega sua nova ambição, a de contar uma história adulta, um épico de aventura baseado em um antigo conto querido por muitos e críticados por outros. A Lenda de Beowulf é o filme onde Zemeckis explora de forma bem mais intensa seus desejos técnicos, realizando movimentos de câmera magníficos, e dedicando-se completamente à tecnica. Suas intenções foram válidas, mas o cinema não é só digital, e mesmo com momentos gloriosos de entretenimento, as falhas do novo longa de Robert são encontradas sem muito esforço.

beowulf2.jpgA conquista visual e técnica do longa é um primor, pelo menos por muitos aspectos. Com o desejo de ser visto em cinemas de 3-D ao redor do mundo, Robert manda objetos voando na tela até o espectador, e realiza alguns movimentos de câmeras – como já mencionados – revolucionários para uma animação, já que raramente ou nunca são feitos antes. E isso tudo é bem empolgante. Certos personagens, como Hrothgar, Grendel e sua mãe, ficaram perfeitos, num show de captura de performance bem utilizado. Porém, alguns outros personagens secundários e até alguns principais, como o próprio Beowulf ou Unferth, se revelavam, em muitas cenas, não mudarem de expressões, mesmo que o humor deles pediam isso. Uma clara decepção, já que revela que por mais que Zemeckis tenha se dedicado tanto à sua conquista técnica, alguns pecados são cometidos.

Felizmente, seu filme não é só visual. Alguns momentos parecem existir simplesmente para Robert obter seus desejos técnicos, mas outros são bem trabalhados, de modo que a narrativa do filme funcione, muito bem delineada e os personagens se tornem fascinantes, particularmente por todos serem falhos de uma maneira, orgulhosos, pecadores, invejosos e vítimas de luxúria e poder. Isso torna o longa muito mais interessante e o sentimento de digital em excesso logo ignorado. As sequências de ação e aventuram entretem, e o longa possui humor e drama de sobra para conquistar entre uma cena empolgante e outra. Desse modo, é visível o fato de que o roteiro do longa funcionou muito bem, apesar de suas falhas, cumpre o seu dever e oferece os valores dos quais esperamos. Não li o conto no qual o filme se baseia, mas se os personagens no conto forem tão interessantes quanto os do filme, com certeza valerá a pena ser lido. A verdade é que mesmo com tanto visual e aventura, é inegável que são os personagens os principais atrativos.

Sempre envolvente e a todo momento oferecendo cenas que acabam conquistando o espectador de uma maneira ou de outra, recomendo A Lenda de Beowulf não pela revolução técnica – já que esta foi explorada em O Expresso Polar, apesar de que já foi constatado que o número de câmeras usado em O Expresso (64 à 72) nem se compararam às quase 300 utilizados em Beowulf – mas por ser um interessante e memorável filme acerca de pecados deixados pelo passado, orgulho e as várias tentações, como a lúxuria e a beleza implacável, como a demonstrada pela belíssima Angelina Jolie, que encarna o monstro mais belo do cinema. Violento e de conotação sexual bem definida, é uma animação adulta, como outra lançada este ano e que se revela tão importante ou mais que Beowulf, O Homem Duplo de Richard Linklater. Robert Zemeckis fez um épico sobre deuses e monstros e a vulnerabilidade do homem, sua conquista foi válida, mesmo que necessitando aperfeiçoamentos, mas o show de A Lenda de Beowulf é irresistível.

[Beowulf, 2007] de Robert Zemeckis. com Ray Winstone, Angelina Jolie, Anthony Hopkins, Robin Wright Penn, John Malkovich, Crispin Glover, Brendan Gleeson e Alison Lohman. [Aventura, 113 minutos]

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Otavio Almeida do Hollywoodiano StarNo StarNo StarNo Star
Kamila do Cinéfila por Natureza


Responses

  1. É extraordinário o avanço da técnica entre EXPRESSO POLAR e BEOWULF. Textura da pele, cabelo, tecido, etc. O estrabismo ainda é um ponto fraco, mas acho que será resolvido. Zemeckis está realmente empolgado com a técnica.

  2. Wally, obrigada pelo link.

    Gostei de “A Lenda de Beowulf”, um filme que possui uma trama legal e uma qualidade técnica enorme (as cenas de ação, como você mesmo citou são excelentes). No entanto, e como você deve ter percebido na minha resenha, o meu maior problema em relação a este filme foi justamente o olhar morto dos personagens. Custava pedir um pouquinho mais de sentimento, como vimos com o Grendel, que ficou perfeito.

  3. Eu faço minhas as palavras do Marfil aí no alto. Só que eu não gostei do filme, do roteiro, etc…

    Aliás, já teve gente que me disse: “Mas Otavio, a razão do filme existir é assisti-lo em 3D!”

    Ora vejam só…

    Abs!

  4. Gosto muito de “O Expresso Polar”, não sei como não foi indicado ao Oscar de melhor animação – ao menos foi lembrado em outras categorias. Ainda não vi “Beowulf”, mas ainda que as opiniões estejam divididas, não perdi a expectativa para o filme. Gostei de sua opinião, me deixou mais animado.

  5. Eu nao tinha gostado muito de “O Expresso Polar”, esse tipo de tecnica usada em ambos os filmes nao me agrada muito, nao quando usada totalmente em 100% da pelicula. O rosto dos personagens ficou tao morto em expressoes, principalmente os dos coadjuvantes, como vc bem frisou. Achei o resultado regular, nao odiei nem gostei muito. Os bons momentos sao as cenas de acao.

  6. Espetaculo visual.

  7. […] alemão é genial, e o mimado e demoníaco Fifi, dublado com brilhantismo por Crispin Glover (A Lenda de Beowulf), cuja voz insere exatamente o tom preciso necessário para trilhar o sinistro e o cômico. Fifi […]

  8. […] infantil e abraçam o teor adulto completamente, como os recentes “Renaissance“, “A Lenda de Beowulf” e “Persépolis“. A nova empreitada do gênero, “Coraline e o Mundo […]


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