Publicado por: Wally | Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Planeta Terror

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O zumbi da revolução

Quando ocorre um desentendimento entre cientistas e soldados, uma arma bio-química experimental é liberada, que acaba infectando várias pessoas no local, das quais se tornam especies de mortos-vivos, cuja doença é contagiosa. A tarefa para aniquilar os zumbis e acabar com os planos malígnos de um tenente revoltado é deixada para um grupo pequeno de loucos sobreviventes.

Um infeliz fracasso de bilheteria, a idéia de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez que era ao mesmo tempo revolucionária e honrosa, entregando uma bela homenagem aos filmes trash dos anos 70, encontrou sucesso apenas com a crítica. O nome foi Grindhouse, que era uma especie de sessão dupla exibida daqueles anos, filmes absurdos e exagerados sobre sexo, violência, assassinos e criaturas horrendas. Inconvenientemente, foi algo conhecido só nos EUA e graças ao fracasso da bilheteria, a sessão dupla promovida por Tarantino e Rodriguez foi divida para chegar ao resto do mundo. Aqui no Brasil, o filme de Rodriguez chegou primeiro. Planeta Terror, a parte mais fraca de Grindhouse é, ao mesmo tempo o mais, digamos, grindhouse! Bem trash e completamente mal feito (intencional claro), o longa possui mais buracos no roteiro que queijos suiços, cenas mal editadas, rolos faltando e uma imagem obscura e falha. Tudo claro, não passa de uma homenagem. Em questões de Grindhouse, Rodriguez deve ter realizado uma obra-prima, mas em questões cinematográficas, apenas um bom e inspirado filme.

rose.JPGDivertido, o filme oscila entre o absurdo, o hilário e o tenso. Esse último sendo o de menor dose, já que coisas tão irreais e grotescas acontecem que fica extremamente difícil não soltar gargalhadas. No mais, é um filme bem inspirado, com boas idéias, referências válidas e possui o verdadeiro espírito de um filme trash. Ou seja, se a intenção de Robert Rodriguez era essa (o que eu tenho certeza que foi) ele se sai extremamente vitorioso. Mas aí precisamos observar com um olhar mais crítico, de alguém que realmente ama cinema. Primeiramente, Planeta Terror, isolado, funciona bem menos do que na sessão de dose dupla chamada Grindhouse, que deixa o longa de Rodriguez fazendo mais sentido, sem contar que À Prova de Morte, de Tarantino, é uma maravilha de filme. No fim das contas, Planeta Terror irá agradar somente quem realmente curte trash, quem não possui muitas exigências em relação à roteiro e simplesmente quer se divertir. A diversão é garantida, a qualidade nem tanto.

Mas como estamos falando de um filme que foi feito para ser considerado “mal feito” não podemos reclamar tanto, precisamos ver, digerir e gostar, sem levar muito pelo lado crítico. Mesmo que em certos momentos o filme age que nem um próprio zumbi, sem cérebro, mas completamente louco e sedento por sangue, já que isso é o que não falta no longa. Sangue, sensualidade, humor e muita, muita matança. Os mais radicais realmente irão ficar insatisfeitos com o filme de Rodriguez, que leva ao pé da letra ser trash, mas a verdade é que seu filme é melhor do que muitos filmes “corretos” lançados esse ano, filmes que possuíam a intenção de ser projetos de “arte”, filmes pretensiosos, mas que acabam não cumprindo a promessa. Não só desse ano, mas de vários outros. A intenção de Rodriguez não era criar um filme de arte correto e agradável, ele simplesmente queria homenagear, divertir e – sim – revolucionar o cinema contemporâneo. Sozinho ele não consegue, mas ao lado de Tarantino, sai vitorioso. Seu filme é um zumbi da revolução.

Acabo por recomendar o filme, mesmo ciente de que os fatores trash não irão satisfazer certas pessoas. Eu, pessoalmente, não consegui resistir ao humor, aos ótimos atores em papéis super divertidos (Rose McGowan está impagável e Freddy Rodriguez, ao seu lado, pegou o espírito da coisa, como certo personagem diz no longa: “aquele garoto tem o dêmonio dentro de sí mesmo”), e à virtudes como a trilha sonora fantástica, a inspiração pop excepcional e o fato do filme estar, a todo momento, vivo. Isso é algo bem raro. Rodriguez pode não ter realizado nenhum filme para a década, mas criou algo bem melhor, um filme que dificilmente será esquecido, tanto pela homenagem, quanto por sua ambição de querer revolucionar hollywood. O zumbi não conseguiu, mas isso não quer dizer que não poderemos o reverenciar.

[Planet Terror, 2007] de Robert Rodriguez. com Rose McGowan, Freddy Rodriguez, Josh Brolin, Marley Shelton, Jeff Fahey, Bruce Willis, Naveen Andrews, Stacy Ferguson e Quentin Tarantino. [Thriller, 95 minutos]


Responses

  1. Seu texto é de 4 estrelas, cara! E é um texto muito bom! Apesar de não concordar que o filme tem algo revolucionário, acho PT um filme divertido. A revolução (que prefiro chamar de inovação) fica por conta da idéia principal do Grindhouse.

  2. Essa idéia de dividir “Grindhouse” por aqui foi bem questionável mesmo. Espero muito mais para “À Prova de Morte”, mas como você mesmo já sabe, gostei muito de “Planeta Terror”. Acho que acima de qualquer outra coisa, o objetivo de Rodriguez foi divertir o espectador com cenas fantásticas de ação, inclusive aquele desfecho que está entre os melhores do ano. E concordo em parte com essa parte da “revolução”. Acho que a homenagem funciona muito bem, mas espero que o segmento do Tarantino seja o verdadeiro “zumbi da revolução”. Bela crítica!

  3. A intenção já é mais do que válida!
    Se o filme de Rodriguez conseguiu lembrar os velhos tempos de Grindhouse, é mais do que vitorioso como vc mesmo disse…
    Um filme que não agrada a todos, mas para o cinema é uma obra positiva! Não acho que se trate de revolução…mas ousadia e diferença!
    Precisamos de mais projetos assim…
    Bom texto!
    aBraço!

  4. Gostei, mas não tanto. Divertido e só. Bem aquém do que eu esperava.
    NOTA: 7.5

  5. Queria ver as duas partes de “Grindhouse” juntas, mas como não é possível, o jeito é se contentar com os lançamentos em separado.

    De qualquer maneira, é tanta informação desencontrada sobre ambos os filmes, que eu os assistirei com a mínima expectativa.

    Boa semana!

  6. Provavelmente foi esta limitação proposital de edição que tornou o projeto “Grindhouse” um grande fracasso. Talvez o resultado seja ainda melhor com as duas produções exibidas separadamente, mas eu vou ter o prazer de ver mesmo a versão dois em um. E tenho expectativas de que o filme de Rodriguez possa ser melhor do que ao do mestre Tarantino.

  7. Argh…


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