Publicado por: Wally | Segunda-feira, Outubro 15, 2007

Tropa de Elite

tropa1.JPGNotícias de uma guerra particular

Capitão Nascimento está cansado da guerra do Rio de Janeiro, onde figura como o comandante do Bope, sua mulher está esperando um filho e Nascimento está presidido constantemente por forte stress. Sua vida acaba se cruzando, em certo momento, com as de Neto e Matias, dois policiais militares honestos do Rio que entram para o treinamento do BOPE, quando Nascimento decide finalmente buscar seu substituto. Enquanto isso, a guerra no Rio de Janeiro continua. 

Tropa de Elite não é um filme sobre heróis. No mais novo longa-metragem do diretor José Padilha (que comandou o excelente documentário Onibus 174) não são mais os bandidos os protagonistas ou os narradores, tanto que tal idéia já foi utilizada – maravilhosamente por sinal – em Cidade de Deus, agora vemos a guerra catastrófica do Rio de Janeiro pelos olhos da autoridade, mais especialmente, do Bope. De qualquer forma, apesar de tentarem, a todo custo, acabar com acorrupção, tristeza e mortes nas favelas do Rio, é incontestável o fato de que o Bope nunca será inocente e “herói”, eles utilizam dos mesmos meios dos quais tentam abolir, que é a violencia. O narrador do filme, Capitão Nascimento do Bope, é um forte comandante, bom de ação, persuassão e ronda as favelas com o devido poder, mas ele chegou ao seu limite. Está cansado de toda essa guerra, de tanto sangue que ronda sua conciencia. Certo momento, ele libera um fogueteiro que acaba de denunciar outro pela forte pressão, mesmo sabendo que o mesmo acabaria sendo assassinado. Logo depois, a mãe do garoto chega para Nascimento pedindo permissão para enterrar seu filho. O sofrimento da mãe é visível de cara, mas Nascimento sofre iqualmente.

Não é somente os personagens fortes do filme que impressionam, densos e fugindo completamente dos esteriótipos, mas sim, como Padilha aborda as questões problemáticas relevantes que rondam as favelas do Rio. Seu modo de filmar é puramente realista, semi-documental, e entrega uma intensidade incontestável nas cenas de ação, sua competencia como diretor é clara e estupenda. O delineamente da trama, de forma que mesmo com várias narrativas e tramas, nunca embola ou se torna confusa, é outro ponto forte. O roteiro se sobressai acima de tudo. Além dos personagens, os diálogos fervem com brilhantismo e certas cenas possuem uma urgencia incrível, detalhadas e bem orquestradas. Padilha não poupa ninguém na viagem, nem os polícias desonestos e miseráveis, que deixam de realiazarem seus trabalhos somente para conseguir uma grana a mais, nem os playboys ignorantes, que não parecem se importar com sociedade, somente em poder enrolar um baseado e quando são agredidos pela polícia, fazerem passeatas contra a violencia. Nascimento ficou, por falta de um termo mais sincero “puto”, e nós espectadores, acabamos ficando também. Tropa de Elite chegou para acabar com toda a hipocrisia.

tro.JPGJá virou moda chamar Wagner Moura de o melhor ator brasileiro da nova geração, mas é a mais pura verdade. Com Tropa de Elite, como o Capitão Nascimento, ele se consolida como um tremendo de um soberbo ator, capturando com o devido equilibrio a situação e as emoções de um comandante do Bope, que vive assombrado por sua conciencia e pelo terror que presencia, preparado ou não. Outros nomes admiráveis no elenco são André Ramiro e Caio Junqueira, que fazem, respectivamente, Matias e Neto, retratando eles de forma excelente, com crueza e realismo. O resto do elenco iqualmente satisfaz. Outros pontos inquestionávelmente admiráveis no filme são a fotografia e a edição. Com a fotografia, o realismo é realçado e a intensidade bem maior, fora o fato de que faz um par perfeito com a montagem ágil e eletrizante. O orçamento parece bem amplo para os padrões brasileiros, e é muito bem utilizado, principalmente na parte técnica.

Baseado no livro Elite da Tropa, Padilha transforma Tropa de Elite na nova sensação do cinema nacional, e não digo isso por causa do infeliz vazamento da cópia para o mercado negro, resultando no fato de que a grande maioria dos brasileiros assistiram ao filme bem antes de chegar os cinemas, digo isso pois desde Cidade de Deus não se via um filme tão impressionante e poderoso, corajoso e capaz de desafiar as estruturas fracas que unem nossa sociedade. O filme encara o sistema, vai fundo, faz comentários sociais-políticos relevantes e importantes com extrema autenticidade, resgata valores esquecidos do cinema nacional e entretem, com ação, adrenalina e intenso drama, do mais cru e preciso possível. Até mesmo seu clímax vibra com originalidade e ousadia, prova concreta do poder narrativo e visual de José Padilha, um cineasta brasileiro que merece aplausos.

[idem, 2007] de José Padilha. com Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Fernanda de Freitas, Fábio Lago, Fernanda Machado e Paulo Vilela. [Policial, 118 minutos]

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Responses

  1. “Tropa de Elite” é um filme excelente, muito bem realizado, com atuações maravilhosas. Mas, acho que o maior mérito dele é fomentar discussão, é refletir. Deixar cenas marcantes e que nos deixam inquietos. O filme mexe com nossa passividade e nos faz discutir sobre essas grandes feridas da sociedade brasileira: a violência e a corrupção.

  2. Como você já sabe, não gostei tanto desse filme. Acho sua denúncia digna e suas ácidas narrações em off excelentes. Porém, não traz nada de novo que já não tenhamos visto em Cidade de Deus.
    NOTA: 7.5

  3. Sem dúvida o melhor filme nacional do ano, realmente a produção mais chocante desde “Cidade de Deus”. Concordo plenamente com o que disse em relação ao Wagner Moura. Acho que boa parte do que “Tropa de Elite” se transformou se deve à sua atuação.

    Abraço!

  4. Um filme eletrizante em todos os aspectos!
    Denúncia e discussão de fatos sociais que acabam por se levar na hipocrisia, em discussões hipócritas…mas em Tropa de Elite é tudo muito claro e cru!
    Ótimo cinema nacional…
    Bom texto!
    abrçao!

  5. É excelente mesmo, Wally! Filmaço! Um dos melhores filmes do ano. Talvez o melhor.

    Abs!

  6. […] da polícia talvez bem mais empolgantes. A própria comparação ao infinitamente superior “Tropa de Elite” torna-se por isso inevitável. Em ambos filmes encontramos personagens principais instáveis […]


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