Pequenos segredos sujos

Em 1984, se passado em uma Berlim ainda dividida, encontramos um agente da polícia secreta chamado Wiesler, vivendo na parte leste do país. Inteligente e habilidoso, os métodos de persuassão do agente são super valorizados. Ele é enviado, com isso, à investigar um escritor potencialmente perigoso para o governo e sua mulher. Aos poucos, porém, Wiesler ficará absorvido pela vida do casal.
No alemão A Vida dos Outros todo personagem guarda um segredo. Ao longo da narrativa majestosa do filme, somos absorvidos por esses segredos e essas pessoas, refletindo muito bem como o próprio personagem de Wiesler se sentia ao observar o casal “perigoso”. É uma raridade do cinema, encontrar personagens tão bons em um filme tão forte. É uma obra que começa de uma forma, lenta e introdutiva, e logo começa a absorver a audiencia, instigar, envolver, até chegarmos ao desfecho decisível, iqualmente maravilhoso. O filme toca brilhantemente nos aspectos frágeis do ser humano, as partes mais vulneráveis, seja o lado manipulativo, o emocionalmente quebrado ou até mesmo o psicológico instável. É um filme que te vence pelo panorama de personagens interessantes e altamente fascinantes.
Por pouco não uma obra-prima, o filme tirou o Oscar de O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, ano passado. Fato muito contestado. Continuo achando que o filme de Del Toro merecia mais, mas é fácil perceber os valores inestimáveis desse denso drama, que é ao mesmo tempo provocativo e essencial, no melhor sentido da palavra possível. Retrata uma época controversa e ousa tocar em temas frágeis, construindo uma trama realista e intrigante sobre um homem que é seduzido pela vida dos outros, e logo torna-se quase que obcecado por ela. À assisti-la e a compreende-la, mas logo se ve preso em um labirinto quando percebe as consequencias de seus atos, o descuido que nunca teve, a fraqueza que nunca revelou. Tudo isso é liderado perfeitamente pela ótima performance de Ulrich Mühe, que tragicamente morreu de cancer ano passado. Ele entrega uma maior densidade ao personagem. Algo ótimo, já que em momentos e digo isso pois acredito ser uma das poucas falhas do filme, me sentia um pouco distante do personagem de Mühe. O roteiro decide trabalhar mais o que acontece em sua volta do que ele mesmo. A verdade é que seu personagem só se torna interessantes de verdade no último ato, onde surpreende. Mas isso é redimido, sensacionalmente se devo dizer.
Além de Mühe, temos excelentes desempenhos de Sebastian Koch e principalmente Martina Gedeck, que fazem o casal excepcionalmente bem. Como para o personagem de Mühe, eles são o núcelo de tudo, a fonte magnética do filme. O diretor é ótimo. Donnersmarck é sutil quando necessário e chocante quando é preciso. Faz um trabalho equilibrado, denso e como disse, altamente instigante, que vai aos poucos te sugando. Seu roteiro é poderoso. Retrata a época muito bem, com detalhes, personalidade e verossimilhança e como disse, possui maravilhosos personagens. Sem contar diálogos fortes e eficientes. O longa ainda tem uma sedutora e marcante parte técnica. Nada exuberante, tudo simples, mas belo. A fotografia, a edição, mas acima de tudo, adorei a trilha sonora, de Gabriel Yared (colaborador de Anthony Minghella) e Stéphane Moucha, é um dos motivos do filme te envolver e carregar tanto. Suas composições oscilam entre o misterioso e o melancólico de forma estupenda. É uma das melhores de 2007.
Repito, uma quase obra-prima, o filme é sensacional e imperdível. Não ve-lo é estar recusando uma bela jornada por vidas inquietantes e fascinantes, que te deixam instigados e surpresos pelos atos que cometem e as escolhas que fazem. Dificílmente desagradará e se mantém, sem sombra de dúvida, como um dos 20 melhores filmes do ano passado. Sua força e seu efeito em mim é inquestionável, e sua meticulosidade, como também seus impressionantes valores cinematográficos, me conquistaram completamente, como poucos filmes conseguem. É um trabalho de arte acima de tudo, e um que realmente correspondeu às expectátivas e às pretensões.
[Das Leben der Anderen, 2006] Escrito e dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck. Com Ulrich Mühe, Martina Gedeck, Sebastian Koch, Ulrich Tukur e Thomas Thieme. [Drama, 137 minutos]

CORAÇÃO DE TINTA ♦♦
O filme é maravilhoso, o diretor lida com o melodrama como ninguém. O roteiro é uma das coisas mais bem escritas em ano.
Tem uma cena que gosto muito que é aquela do elevador, cheia de simbolismo e até mesmo uma compaixão por parte do protagonista.
Nesse fim de semana vou publicar a lista de meus melhores do ano, e com certeza esse filme vai estar entre eles.
Por: Lucas em Quinta-Feira, Janeiro 17, 2008
às 12:52 pm
Ah1 ainda bem que esse filme vai entrar aqui no cinema… depois dessa critica ainda fico mais convencido a ir ve-lo. Mas só daquia duas semanas ele entra… o negócio é aguardar…
falow!
Por: felipenobrega em Quinta-Feira, Janeiro 17, 2008
às 4:55 pm
Wally, estou doida para assistir a este filme, mas acho difícil que ele seja lançado nos cinemas daqui. Por isso, acho que a melhor alternativa, para mim, é esperar o lançamento dele em DVD.
Por: Kamila em Quinta-Feira, Janeiro 17, 2008
às 6:59 pm
Também considero uma quase obra-prima, inclusive o final é um dos mais emocionantes do ano. A trilha do Gabriel Yared é maravilhosa mesmo, fiquei bastante impressionado com seu trabalho. Também prefiro “O Labirinto do Fauno”, mas esse prêmio não deixou de ser merecido – até porque foi para um estreante, o que é sempre bom. Valeu pelo link! Minha nota é 8,5 [****]
Abraço!
Por: Vinícius P. em Quinta-Feira, Janeiro 17, 2008
às 7:27 pm
Eu adoro esses últimos filmes alemães, a maioria são todos focados na história política do país, uma temática que sempre rende obras excelentes. Gostei muito desse filme, mas o Oscar pra mim deveria ter sido de Del Toro, cujo filme na minha opinião foi o melhor de 2006, e um dos melhores e mais originais que já vi.
Esperando seu texto de “Inland Empire”!
Por: Romeika em Quinta-Feira, Janeiro 17, 2008
às 7:43 pm
Certamente é um filme intimista que lhe conquista aos poucos
Por: Marfil em Quinta-Feira, Janeiro 17, 2008
às 10:48 pm
Realmente, me interesso muito por esse filme, mas não estreou por aqui. Me interesso ainda mais em saber que ele tirou o prêmio de Labirinto do Fauno.
Abraço cara!
Por: Rodrigo em Sexta-feira, Janeiro 18, 2008
às 12:41 am
Preciso ver esse filme… todo mundo recomenda… Deve ser excelente.
Abs!
Por: Otavio Almeida em Sexta-feira, Janeiro 18, 2008
às 1:49 am
Acho mesmoq eu só pelo simpels fato dele ter tirado o premio de labirinto do fauno, pois acho que é um filme muito bem feito… com problemas, logico, mas nada que atrapalhe a beleza dele…
O cinema alemão têm tido bons exemplares de qualidade cinematografica: desde Corra lola, corra…ou Adeus Lênin, Edukators achei muito bom, além de A queda que além de ser polemico é muito bom tbm…laém doq eu garndes mestres estão por lá como Wim Wenders, Herzog…
tomara que venha para a minha cidade, pois nada como assistir em telona no escurinho…
abraços
Por: rodrigo fernandes em Sexta-feira, Janeiro 18, 2008
às 1:55 am
Lucas, realmente o filme é ótimo e cheio de simbolismos. Aguardo sua lista. Ele deve ficar entre meus 20 preferidos.
Felipe, procure ver, é excelente!
Kamila, assim que chegar em DVD (não deve demorar muito) pegue logo.
Vinicius, concordo completamente. Mas minha nota é 9,0 ;)
Romeika, o filme é ótimo mesmo, mas Fauno é melhor. #4 na minha lista de 10 melhores de 2006.
Marfil, exatamente.
Rodrigo, quando estreiar, veja, mas não é melhor que Fauno, pelo menos na minha opinião.
Otavio, É excelente, muito forte.
Rodrigo F., tudo no escurinho do cinema é melhor. E concordo, o cinema alemão entrega boas surpresas. Adoro A Queda e Adeus, Lenin, mas não vi Edukators ainda. Herzog é ótimo, até mesmo no cinema hollywoodiano.
Ciao!
Por: Wally em Sexta-feira, Janeiro 18, 2008
às 2:02 am